Sabrina Noivas 112 - If The Ring Fits...

A lenda diz que o prncipe tem de se casar com a mulher em cujo dedo o anel servir...
Absurdo. O prncipe Richard no acredita em magia... nem em amor verdadeiro. Isso no impede que todas as mulheres que visitam o palcio provem o anel "encantado". Felizmente, o anel no serviu em nenhuma. Isto , at a estabanada herdeira americana Christina Armstrong experiment-lo... e o anel "grudar" no dedo dela! Apesar de atrado pela bela americana, Richard descarta totalmente a possibilidade de torn-la princesa. Ela  audaciosa, extrovertida, irreverente, espirituosa... e absolutamente errada para ele. Ento, por que ela no sai de seus pensamentos? E por que no conseguem tirar o anel?

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2000
Publicao original: 2000. Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance contemporneo
 

CAPITULO I

	Sua Alteza sabe que ela quase ps fogo na Casa Branca?  perguntou, baixinho, Didier Alois.
Sua Alteza Serenssima, prncipe Richard de Thierry de San Montico observou a jovem com rosto em formato de corao e radiantes olhos cor de esmeralda. O corpete justo do vestido verde, combinando com os olhos, realava a cintura fina, e os cabelos encaracolados e vermelhos caindo pelos ombros, brilhavam sob a luz dos lustres de cristal.
Caminhando pelo Great Hall, ela seguia lentamente a fila de cumprimentos, fazendo reverncias e lanando sorrisos deslumbrantes aos dignitrios e membros da realeza.
	Quem  ela?
	Christina Armstrong, Alteza  Didier respondeu em voz baixa.
Didier sabia tudo sobre os convidados para o baile de aniversrio do prncipe. Entre outras tantas, essa era tambm sua funo, como conselheiro real.
Richard queria saber mais a respeito de Christina Armstrong. Tinha certeza de que nunca tinham se encontrado antes, apesar da aparncia familiar. Reparando no cavalheiro de cabelos grisalhos que a acompanhava, lembrou-se.
	Armstrong? O bilionrio patriarca da segunda famlia
mais importante da Amrica?
	Sim, Alteza.
Richard conhecia bem mulheres como Christina. Ele j estivera noivo de uma! Filha de milionrios que ainda usava o carto de crdito do papai! Rica, mimada, candidata em potencial ao ttulo de princesa.
Ele cerrou as mos enluvadas.
	Eu pedi  minha me para no convidar nenhuma americana. Voc sabe o que elas pensam a respeito da... realeza.
	Creio que sua me no teve escolha, considerando as contribuies generosas que a Armstrong International faz periodicamente s obras assistenciais do palcio.  Didier hesitou por um instante, depois acrescentou:  Nem todas as mulheres americanas so como...
	Isso no tem nada a ver com ela... Absolutamente nada  Mas pelo modo como Richard contraiu os maxilares, Didier percebeu que no era verdade.
Recuperando o controle, ele baixou o tom de voz.
	 o meu aniversrio. Eu deveria ter sido consultado sobre a lista de convidados.
	A julgar pela qualidade das mulheres presentes, acredito que a princesa Marguerite escolheu muito bem, mesmo sem a sua superviso.  Didier sorriu.  Se Sua Alteza permitir-me, Christina Armstrong parece uma princesa. Ela  muito bonita e graciosa. Com sua educao e a influncia da famlia...
	Ela no  nada mais do que uma herdeira americana  Richard o interrompeu.
	A lenda no faz restries...
	A lenda, Didi?  A simples meno da palavra "lenda", Richard sentiu um gosto amargo na boca,  Voc acredita mesmo que o anel real servir no dedo de uma dessas mulheres, e que encontraremos o amor verdadeiro e a felicidade eterna? E que esse casamento trar prosperidade  nossa ilha?
	Acredito, Alteza.
A lenda.
Richard no queria participar dela. Ele acreditava na lenda tanto quanto acreditava em contos de fadas e amor  primeira vista. Talvez em sculos anteriores, as lendas tinham certo sentido, mas nunca nos dias atuais.
Estava realizando a vontade do pai e levando San Montico para o presente. Porm, essa era uma tarefa monumentalmente lenta e difcil. Cada passo rumo ao progresso era uma batalha contra a maioria que resistia s mudanas.
Quanto mais Richard promovia o progresso, mais o povo reforava as barreiras. Os habitantes da ilha apegavam-se aos mitos e s tradies, como os nufragos agarram-se a tudo o que significa uma chance de viver.
E eram com esses costumes antigos, como a Lenda do Anel, que o povo impedia que San Montico caminhasse para frente. S com a desmistincao dessas supersties, o progresso teria lugar.
Uma vez que Richard provasse que a lenda no passava de um conto de fadas, San Montico poderia dar um salto gigante rumo  modernizao. Seria o melhor para o pas, o melhor para ele prprio.
	A lenda  pura fantasia, Didi, e eu vou provar isso. Assim que o relgio tocar meia-noite, tudo estar terminado.
	Talvez seja apenas o comeo. A lenda j se cumpriu no passado, Alteza.
Richard no acreditava.
	Foi apenas a realizao de uma profecia. A lenda tornou-se verdadeira porque os meus ancestrais, incluindo meus pais, decidiram torn-la verdadeira. Eu decidi desmistific-la.
Lanou um olhar irritado para o conselheiro, que alm de primo, era seu melhor amigo.
	Por que voc no se casa e me deixa em paz?
Didier suspirou.
	Esqueceu-se de que, segundo a tradio, s poderei casar-me depois de Sua Alteza?
Outro costume estpido. O estado civil de Richard no deveria ter nada a ver com seu conselheiro. Se pelo menos Didier no estivesse to empenhado em seguir os velhos hbitos...
	Eu devia ter adivinhado que existia outro motivo para voc insistir tanto para eu me casar!
	Meu nico motivo  visar os interesses do nosso pas. Sua Alteza precisa encontrar uma esposa.
	Estou tentando, Didi.
Richard estava fazendo o possvel para destruir a lenda. Ele marcara encontro com todas as mulheres que conhecia. At seis meses antes, acreditara ter encontrado a mulher ideai, mas decepcionara-se. Depois disso, embora disposto a encontrar outra, decidira no abrir o corao para mais ningum.
	No tenho medido esforos. Acho que isso conta, no?
	Mas nenhum dos seus esforos foi... bem-sucedido, Alteza. Ainda est solteiro, e San Montico precisa de um herdeiro.
Richard estava cansado de ouvir o que San Montico esperava dele. Ele sabia. Fora instrudo desde o dia em que nascera. Ajeitou as luvas.
	Posso providenciar um herdeiro sem ser casado!
Didier rilhou os dentes.
	Alteza...
Richard no conteve um sorriso.
	Teremos que deixar esta discusso para mais tarde, Alteza  murmurou Didier.  A vem o sr. Armstrong e sua filha.
Richard concordou com gesto quase imperceptvel de cabea. O elegante e altivo Alan Armstrong inclinou-se diante dele.
	Alteza, permita-me apresentar minha filha Christina.
Atraente, sim. Fibra de princesa, no. O rosto corado e os olhos arregalados revelavam que ela estava impressionada com Richard. Um pouco intimidada tambm. O que mais poderia esperar de uma americana? Quando decidisse se casar, escolheria uma mulher que o visse como homem, no como prncipe. Ele forou um sorriso.
	 um prazer conhecer sua adorvel filha.
Ela fez uma reverncia.
	Feliz aniversrio, Magnfico... isto , Alteza.
Richard conteve-se para no fazer uma careta.
	Obrigado, srta. Armstrong.  Ele segurou-lhe a mo trmula e beijou-a. A pele era macia e quente sob seus lbios.
Ele sentiu o cheiro de leo de amndoa na pele bronzeada. 
Quem sabe, ela no teria tomado banho de sol de topless?  Estou feliz que tenha vindo.
Quando Richard soltou-lhe a mo, ela deixou cair a bolsa. Ele se inclinou para peg-la. Christina fez o mesmo, batendo a cabea na testa dele. Assustada, a moa perdeu o equilbrio. Num movimento rpido, o pai segurou-a, salvando-a de uma queda memorvel.
	Desculpe-me.  Ela tocou no brao de Richard, quebrando o protocolo real. Ele se enrijeceu.  Sua Alteza est bem?
Quanto mais rpido se livrasse dela, melhor. Ignorando a dor de cabea, Richard entregou-lhe a bolsa.
	Estou.
Antes que Christina dissesse mais alguma coisa, Alan Armstrong empurrou-a para fora da fila de cumprimentos.
	Alteza, minha esposa lamenta muito por no ter vindo  sua festa de aniversrio, mas ela tinha um compromisso inadivel.
Richard inclinou levemente a cabea e, com o canto dos olhos, viu Christina afastar-se em direo ao salo de baile, e observou o suave movimento do seu vestido.
Parecia um anjo rodeado de nuvens. Um anjo, ela no era. A batida na cabea fora mais forte do que ele imaginara. Ele friccionou a testa, e ela se voltou para olh-lo.
Seus olhares se encontraram, por um instante. Ao mesmo tempo, ela esticou o brao para apertar a mo de...
No.
Contendo o impulso de gritar, Richard cerrou os dentes. Christina apertou a mo, no de um homem, mas de uma armadura! Um das luvas blindadas caiu ao cho, deixando a valiosa pea sem mo.
Droga! Nem mesmo a mais sangrenta das batalhas travadas para preservar San Montico dos invasores espanhis e franceses, haviam conseguido destruir a armadura. Mas aquela mulher, a americana...
Os msculos de Richard se retesaram, a presso sangunea subiu. Mais uma dor para sua j dolorida cabea. Christina olhava para a luva com expresso horrorizada. Depois, tentou escond-la atrs da armadura.
Alan Armstrong resmungava um pedido de desculpas, que Richard aceitou com um sorriso protocolar.
No era momento de mostrar emoes. No, com o palcio repleto de convidados. Precisava manter-se calmo, impassvel. Era apenas uma luva, uma luva blindada que pertencia  famlia dele havia sculos. Olhou para Christina.
	Precisa de ajuda, srta. Armstrong?
Ela ergueu a luva e sorriu.
	Parece que encontrei uma mo extra.
Pelo menos, a americana tinha senso de humor. E no incendiara o palcio. Richard suspirou aliviado.
	Ningum pode ter mos demais.
Os olhos dela brilharam.
	O que devo fazer com... bem, com isto?
	Didier, por favor, ajude a srta. Armstrong.
	Sim, Alteza.  Didier aproximou-se dela e pegou a luva blindada.  Lamento pela inconvenincia.
	E eu lamento t-la quebrado  desculpou-se Christina.
	A senhorita no a quebrou  Didier apressou-se em esclarecer.  ... antiga.
Como todas as demais peas insubstituveis e valiosas do palcio. Richard fora prevenido. A bela americana quase pusera fogo na Casa Branca. Ele no permitiria que o mesmo acontecesse ali. Teria o cuidado de manter Christina Armstrong bem longe at mesmo de sua vela de aniversrio! A noite j seria suficientemente longa, sem nenhum inesperado espetculo pirotcnico. 
Os Armstrong nunca se impressionam. Os Armstrong nunca se impressionam.
Ecoando na mente, o mantra de sua famlia esnobe. Christina sempre tivera muita dificuldade para no impressionar-se, mas naquela noite fora impossvel no ficar boquiaberta.
Sua famlia era obscenamente rica, e seus membros no tinham escrpulos em ostentar a fortuna incalculvel. Mas aquilo... Ela nunca vira tanta riqueza exposta com tanto bom gosto.
O prncipe Richard sorriu e Christina suspirou. Nenhum homem merecia ser to bonito. Pecaminosamente sensual. Era como podia descrev-lo. Tudo nele sugeria realeza. O nariz aristocrtico, os maxilares proeminentes e as feies delineadas eram suavizados pelos lbios cheios, pelos clios espessos e a covinha na face esquerda, acentuada quando ele sorria. O contraste era devastador.
Com os olhos da cor das guas que rodeavam a ilha de Santorini, os cabelos castanhos dourados pelo sol, o prncipe era, sem dvida, um dos homens mais bonitos que conhecera.
E o melhor partido, tambm.
Tanto pior que era um prncipe cujos passos eram seguidos pela imprensa, pela curiosidade pblica e pelas fs ardorosas. Mas aquela parecia mesmo uma noite especial.
A presena da imprensa era restrita, e, nem mesmo os pa-parazzi haviam conseguido furar o bloqueio dos seguranas.
Christina deu de ombros. Ela poderia ser a Cinderela do baile do prncipe, e no se importaria de tornar-se manchete dos tablides, por uma noite.
Por uma noite, ela poderia esquecer-se da dura realidade da vida.
 Est se divertindo, srta. Armstrong?
A voz veio de algum s suas costas. Voltando-se, ela se deparou com o conselheiro do prncipe parado junto a uma mesa. Seu sorriso no revelava nada, mas ele deveria t-la visto olhando para o prncipe como um cozinho amestrado. Talvez ele pretendesse salv-la daquela situao embaraosa. Ela endireitou o corpo.
	Sim, estou.
	Sou Didier Alois, conselheiro do prncipe. Fomos apresentados ainda h pouco.
Lembrando-se do incidente com a armadura, ela riu.
	Sim,  verdade.
Aproximando-se, Didier apontou para a direita.
	A senhorita j experimentou o anel?
	No.  O anel descansava sob um pequeno pedestal forrado de veludo negro. Se ela no estivesse to ocupada, perdendo-se em olhares para o prncipe, teria notado a jia.
 Que anel  este?
	 o anel de noivado real.  Didier retirou o anel de dentro do estojo. Um brilho multicolorido refletia-se de todas as facetas da pedra central, um diamante imenso.
	Todas as noivas de Thierry j o usaram.
To bonito quanto todas as jias da coroa expostas na torre de Londres, o diamante brilhava sob as luzes do salo. O anel era um modelo medieval, com rubis, esmeraldas e safiras, incrustadas num aro de filigrana, que abrigava a pedra magnfica.
	Deslumbrante  murmurou ela.
	Experimente-o.
	No acho uma boa ideia.
	Por favor  insistiu ele com firmeza.  Todas as mulheres presentes so requisitadas para experimentar o anel.
O prncipe Richard ficar aborrecido se no o fizer.
Christina no queria aborrecer o prncipe, mas tambm no gostaria de provocar outro acidente. Depois da luva da armadura, ela conseguira manter-se longe do problemas. No queria abusar da sorte. Recuou alguns passos.
	Por favor, srta. Armstrong  Didier insistiu.  Temos que ver se serve.
Ela sorriu.
	E se servir? Eu ganho algum prmio ou coisa assim?
Didier sorriu tambm.
	Ou coisa assim.
Voltando-se, Christina olhou para o prncipe. Seria interessante experimentar o anel. O anel dele. Uma chance de ouro. A chance de tornar-se realmente a Cinderela do baile. No, no estaria se envolvendo em problemas, uma vez que o prprio conselheiro do prncipe estava insistindo para ela provar o anel. Nem mesmo seu pai a recriminaria por isso. Alm disso, o anel parecia pequeno demais. Duvidava que entrasse em seu dedo! Aps alguns momentos de hesitao, ela estendeu a mo esquerda.
	Ok.
Didier levou o anel at o dedo dela. Estranho, mas Christina teve a sensao de calor emanando do aro de ouro. Devia ser de Didier. Os homens eram muito quentes. Quando o anel tocou sua pele, foi como se uma descarga eltrica atingisse seu brao. Ela gemeu, mas Didier continuou colocando o anel no seu dedo.
Quando ele soltou-lhe a mo, Christina arregalou os olhos. No acreditava. O anel servira!
Ela olhava espantada. Lindo. Algum dia, teria seu prprio anel de noivado. Nada to espetacular. Uma simples aliana de ouro j estaria muito bom. Tudo o que queria, era encontrar um homem que a amasse pelo que ela era, que quisesse as mesmas coisas que ela queria, crianas, cachorros e uma varanda com cadeira de balano. Uma vida normal, uma famlia normal.
No mais glamour. No mais fotografias, nem manchetes, ou notas em colunas sociais. No mais pginas e pginas de contratos pr-nupciais para proteger uma herana que ela nem queria.
Didier franziu as sobrancelhas.
	A senhorita est bem?
	Sim  respondeu Christina, entorpecida e febril. Sol demais, champanhe demais, sensualidade demais em torno do prncipe Richard.
O relgio secular bateu as doze badaladas da meia-noite. Hora para acabar o encanto da Cinderela.
	Obrigada por permitir que o provasse.  maravilhoso.
Ela puxou, mas o anel no saiu de seu dedo.
Didier inclinou-se.
	Algum problema, srta. Armstrong?
Christina tornou a puxar o anel, mas os dedos deslizavam sobre o aro de ouro. O anel sequer girava ao redor do dedo anular.
	Parece grudado!
	Deixe-me tentar, senhorita.  Didier puxou com fora at Christina quase gritar de dor.  Realmente, parece que grudou mesmo!
Ela no entendia o motivo de Didier estar sorrindo. Ele deveria estar preocupado
	Tenho que tirar este anel. Se meu pai descobrir, ele me mata! O prncipe, ento...
Um rpido olhar revelou que o prncipe estava absorto demais numa conversa e no reparara no que acontecia com o anel real. Christina queria livrar-se logo da jia.
	Eu posso ir at o toalete e tentar remov-lo com gua e sabonete?
Por algum estranho motivo, Didier parecia feliz da vida. Os olhos castanhos cintilavam, o sorriso alargara-se. Ele parecia mesmo exultante.
	No creio que v sair.
	Por favor  ela pediu. Como permitira que aquilo acontecesse? J no se envolvera em apuros suficientes para uma nica noite?  Eu gostaria de tentar.
Com o canto dos olhos, Richard viu Didier aproximar-se. J no era sem tempo! No suportava mais ouvir comentrios incuos sobre as famlias reais europeias.
	Podemos conversar um instante, Alteza?  Didier perguntou.
	Claro.  Richard inclinou levemente a cabea.  Com licena, senhoras.  Assim que se viu longe dos ouvidos das convidadas, ele suspirou.  Obrigado por ter vindo em meu socorro, Didi. Eu estava me sentindo como um coelho rodeado por um bando de lobos. Estava ansioso para que voc esquecesse o bendito anel para salvar-me.  Richard olhou para o pedestal.  Para o pedestal vazio. Nem guardas, nem anel.  Onde est o anel?
O sorriso radiante de Didier respondeu  pergunta.
No. No poderia ter acontecido.
A lenda no era verdade, no era. A lenda dizia que ele tinha que casar-se com a mullier, em cujo dedo o anel servisse, dentro de uma semana, ou ento abdicaria ao trono. Ele no faria nem uma coisa, nem outra.
	Algum sabe? Minha me?
	No, mas podemos anunciar...
	No diga a ningum.  Richard precisava de tempo para pensar, tempo para elaborar um plano. No permitiria que supersties e mitos influenciassem a deciso mais importante de sua vida, afastando-o cada vez mais do processo de modernizao do pas.  Onde est... o anel?
	No toalete das senhoras  Didier disse.  Com a srta. Armstrong.
Ela no. Por favor, ela no.
	Posso sugerir uma linha de ao, Alteza?
Richard apertou os dentes.
	No. Voc j fez bastante.
Christina ensaboou vigorosamente as mos, mas no havia meio de o anel sair de seu dedo. Na verdade, no conseguira mov-lo nem um milmetro sequer. Como bem dissera, parecia grudado em sua pele. Abriu a torneira e deixou a gua escorrer nas mos, eliminando toda a espuma.
Olhando para o anel no dedo vermelho e inchado, conteve a vontade de gritar. Deveria ter dito "no" quando sua me insistira para que ela acompanhasse o pai  festa do prncipe de San Montico. Na hora, parecera-lhe to simples fazer a me feliz. Mas agora...
Christina desapontaria seus pais. De novo. Por mais que se esforasse, nunca seria capaz de content-los. Mas, contra sua vontade, dissera "sim". E s causara constrangimentos. A ela mesma,  sua famlia, ao seu pas. Era s esperar at a me dela descobrir...
E se no conseguisse tirar o anel? Christina flexionou a mo. No acreditava que lhe cortassem o dedo fora. Era uma artista. Precisava de todos os seus dedos. Suspirou fundo. Era hora de ensaboar as mos novamente.
Talvez estivesse exagerando uni pouco. Mas estava numa pequena ilha no Mediterrneo, governada por um prncipe, e no nos Estados Unidos da Amrica. Duvidava que San Montico obedecesse s leis dos Direitos Internacionais. Deveria ter suas prprias leis, olho por olho, dente por dente, mo pela mo. Passou sabonete em volta do anel.
Talvez seu pai pudesse fazer alguma coisa para compensar. Abrir uma fbrica, construir um hotel de luxo, pagar as dvidas do pas. Talvez o prncipe entendesse e relevasse. Ou, quem sabe, sua vida terminava ali.
Ensaboou mais o dedo, porm, o anel continuava fixo.
Sentiu uma pontada no estmago, depois outra. Contorcendo-se de dor, inclinou-se sobre a pia de mrmore e gemeu.
	Ah, meu Deus! O que vou fazer?
Um homem pigarreou.
	Com licena.
No espelho, Christina viu a imagem do prncipe Richard, de braos cruzados e expresso impenetrvel. Parecia mais um pirata do que um prncipe. Um pirata terrvel. Seria demais esperar pela compreenso dele.
	Eu bati, mas ningum respondeu.
Ela se voltou, sem saber o que dizer. A altura dele e os ombros largos tornavam o banheiro minsculo.
	Alteza, eu...
Didier entrou no banheiro, sorrindo.
	O anel serviu, Alteza.
As narinas do prncipe Richard se dilataram. Os lbios grossos praticamente tornaram-se uma linha, de to apertados.
Furioso. Oh, Deus!, ele estava furioso. Christina no imaginava como sairia daquela enrascada.
	Deixe-me ver sua mo.
Ela estendeu-lhe a mo meio ensaboada.
	Talvez, se eu tentar com alguma loo...
	Quieta.
O tom spero da voz dele calou-a. Christina estremeceu. O Prncipe Encantado desaparecera. As linhas clssicas do rosto, de repente, tornaram-se duras, cruis, nada bonitas. O queixo parecia arrogante, nada confivel. Se ela pudesse atrasar o relgio e voltar ao baile...
O prncipe Richard tirou as luvas. Segurando-lhe a mo, puxou o anel at as lgrimas brilharem nos olhos de Christina. Ela mordeu a lngua para no gritar.
	Serve, Alteza  Didier afirmou com um sorriso triunfante.
	No serve.  Desistindo, o prncipe lavou e enxugou as mos.  Est emperrado.  pequeno demais.
	A lenda diz...
	Lave as mos, srta. Armstrong  ordenou ele, antes que Didier falasse demais.
	Que lenda?  perguntou Christina.
	Lave as mos  Richard repetiu.  No vou mandar de novo.
	Sim, Alteza.  Christina murmurou, sentindo-se uma criana repreendida pela me, depois de uma traquinagem. Ela enxaguou as mos, mas no conseguiu tirar todo o sabonete infiltrado na filigrana.
	Encontre o sr. Armstrong  ordenou o prncipe, de novo,  Preciso falar com ele imediatamente.
Didier parou na porta do banheiro.
	Alteza, talvez...
	Agora no, Didi.  Assim que a porta se fechou atrs do conselheiro, o prncipe Richard entregou a Christina as luvas brancas.  Coloque-as.
As luvas eram, no mnimo, dois nmeros maiores.
	So grandes, Alteza.
	No estamos num desfile de modas, srta. Armstrong.
Coloque-as e no discuta. No quero que minha me a veja usando esse anel. Nem a imprensa.
A imprensa. O prncipe Richard tocara o ponto crtico. Ela vestiu as luvas.
Richard caminhou at a porta.
	Venha comigo.
Incerta e meio assustada, Christina hesitou.
	Vamos. Agora.
Ela ergueu o queixo, tentando reunir sua coragem para perguntar:
	Aonde, Alteza?
	Para um lugar reservado, onde no seremos perturbados.
O palcio que parecera um castelo de sonhos, de repente, comeava a transformar-se num pesadelo. Certamente, o palcio teria um calabouo com uma cmara de tortura. Ela seguiu o prncipe Richard por um corredor estreito e pouco iluminado.
	Onde, exatamente, fica esse lugar, Alteza?
	No meu quarto.
CAPITULO II

Christina parou diante das majestosas portas duplas do quarto do prncipe, o corao batendo na garganta. O prncipe, o anel de noivado, o quarto. Oh, cus! O quarto. O quarto do prncipe. Ningum acreditaria no que estava acontecendo. Talvez a famlia dela, absolutamente mais ningum. Christina beliscou o brao para certificar-se de que no estava sonhando.
O prncipe Richard adiantou-se para a abrir uma das portas.
	Entre e espere-me a dentro.
	Alteza...  ela comeou, depois hesitou.
O olhar de superioridade dele deixou-a pouco  vontade.
	O que foi, srta. Armstrong?
Christina no tinha sangue real, mas era uma Armstrong. Endireitando o corpo, obrigou-se a fit-lo nos olhos.
	Lamento ter estragado seu aniversrio.
	Entre.  Com a mo nas costas de Christina, conduziu-a para dentro do quarto. Evidentemente, ele nem prestara ateno no pedido de desculpas dela.  No toque em nada e fique longe das janelas.
Ela se conteve para no perguntar se deveria entrar descala, para no macular o carpete. De nada adiantaria irrit-lo ainda mais.
	Sim, Alteza.
	Tenho que voltar  festa. Creio que meu tio est sofrendo um ataque cardaco.
Ataque cardaco? Christina abriu a boca, mas a voz morreu na garganta. O prncipe Richard saiu do quarto, fechando a porta. Christina tentou abri-la, mas estava trancada  chave.
Ela estava presa no quarto do prncipe. Sozinha.
Um ataque cardaco? Certamente era brincadeira do prncipe. Ou seria verdade? Christina olhou para as mos enluvadas.
O anel. S podia ser por causa do anel.
Respirou fundo, soltando-a devagar e ruidosamente. O que ela provocara dessa vez? Ataques poderiam ser fatais. Apertou as mos, desesperada. O marqus era um homem to simptico, to encantador. Bem diferente do sobrinho, prncipe Richard.
Ela se jogou na enorme cama de casal de mogno, ricamente entalhada. Pela janela aberta, entrava uma brisa suave, enchendo o quarto com o cheiro de mar. Mas o ar fresco no amenizava seu sentimento de culpa.
A culpa era dela.
Deitada na cama do prncipe, ela ajustou as luvas para no carem. Durante toda sua vida, ela quebrara muitas coisas, quase sempre coisas muito valiosas. Era capaz de comear uma guerra, ou uma pequena insurreio, como seu pai preferia considerar.
Depois de um tempo que pareceu uma eternidade silenciosa, ela ouviu o rudo da chave na fechadura. Pulou da cama um segundo antes de abrirem a porta. O prncipe Richard entrou seguido por Didier e pelo marqus.
O marqus!
Graas a Deus! Ele no morrera. Christina correu e abraou-o.
	O senhor est vivo!
O marqus sorriu.
	No mais do que antes.
Ela fitou os olhos azuis que lembravam os do prncipe.
	Pensei que o tivesse matado.
	Minha cara Christina, posso cham-la assim?
Ela concordou com um gesto de cabea, sem afastar os olhos do rosto do marqus. Ele estava vivo. Vivo. Uma lgrima escorreu-lhe pela face.
	Esta lgrima  por mim?  O marqus enxugou-lhe o rosto com um leno de linho branco.  Voc me faz desejar ser trinta anos mais jovem. Richard, meu felizardo rapaz, voc encontrou uma maravilhosa...
	Por que voc mataria meu tio?  perguntou o prncipe Richard, abandonando tambm o tratamento formal.
	Sua Alteza me disse que o marqus estava sofrendo um ataque cardaco. Imaginei que fosse por causa do anel.
	Seu corao bateu mais forte. O anel. Por um momento, ela o esquecera.
Olhou para o prncipe, esperando ver nele a mesma compaixo, a mesma sinceridade, que vira no rosto do marqus. Mas o rosto do prncipe mostrava apenas impacincia. Como pudera confundi-lo com um Prncipe Encantado? Nunca ansiara tanto por ter algum de sua famlia por perto.
	Onde est meu pai?
O marqus afagou-lhe o ombro, tranqilizando-a.
	Logo ele estar aqui.
	Tire as luvas  ordenou o prncipe Richard.
	Por favor, meu querido sobrinho  o marqus advertiu-o gentilmente.  Christina no  nenhum objeto. Ela ser sua...
	Por favor, digo eu, tio Phillippe. Se insistir em interferir, pedirei para retirar-se.
	Fingi esse ataque cardaco para acabar com sua festa e  assim que voc me agradece?  O marqus parecia ofendido.
	O senhor fingiu estar tendo um ataque cardaco?  Christina perguntou.
	Sim, minha querida.  Phillippe ergueu uma sobrancelha.  Uma performance impecvel, diga-se de passagem. Digna de um Oscar.
	Por qu?
O prncipe Richard pigarreou e o marqus suspirou.
	Por que no pergunta  Sua Alteza Serenssima?
O prncipe no disse nada. Continuou com aquela irritante expresso de superioridade. Ela se desesperara, chorara, acreditando que ser a causa da doena do marqus. Merecia uma explicao. Com as mos na cintura, encarou o prncipe.
	E ento? Sua Alteza Serenssima vai me contar o que est acontecendo aqui?
Didier e o marqus riram, e o prncipe fulminou-os com um olhar furioso. Depois, olhou para o teto e resmungou algo em francs.
Estpido e arrogante, isso o que ele .
Ela poderia ter-lhe respondido em francs tambm, mas preferiu respirar fundo para acalmar-se.
	Alteza, eu no colei o anel em meu dedo. Nem fiz de propsito. Se quiser me dizer alguma coisa, e pode ser em francs mesmo, mas fale olhando no meu rosto, por favor.
O prncipe Richard avaliou-a por um longo momento.
	Voc fala francs?
	Fluentemente.  Christina adorou a expresso espantada dele. O homem era mesmo orgulhoso.  Quando eu estava na faculdade, estudei em Paris.
	Fala outros idiomas?
	Italiano. Estudei um ano em Florena.  Aproveitando o instante de surpresa do prncipe, Christina no se fez de rogada. Ainda que momentaneamente, assumiu o controle da situao.  E espanhol tambm. Passei oito meses na Espanha, entre Madri e Barcelona.
	Alteza  Didier interrompeu-os.  Christina est esperando sua explicao sobre o ataque cardaco do marqus.
	Parece que conseguiu dois protetores, srta. Armstrong.  O prncipe reassumiu a pose real, mas a veia do pescoo ainda pulsava forte. Ele no era to frio e controlado como queria que as pessoas acreditassem.  J que insiste, vou contar. Uma vez que voc, descui...
Didier tossiu.
	Desculpe-me, Alteza.
Pelo olhar do prncipe, Christina no teve dvidas que ele teria estrangulado seu conselheiro, se pudesse. Didier, porm, no se intimidou, e o prncipe continuou:
	Uma vez que voc teve a infelicidade de ter o anel colado em seu dedo, achei melhor que os convidados se fossem, antes que comeassem os comentrios. Eu precisava de um motivo para acabar com a festa. Ento, recorri ao talento do meu verstil tio.
	J representei Shakespeare  afirmou o marqus fazendo uma reverncia.
Christina no conteve o riso. No fora m ideia. E funcionara. Ela mesma era favorvel a qualquer estratgia apenas para evitar comentrios e manter a imprensa afastada. Sua Alteza podia no ser aquele cavaleiro de armadura reluzente, mas era rpido no raciocnio. Talvez ele at encontrasse um meio para sarem daquela confuso.
	Agora que respondi  sua pergunta, srta. Armstrong, poderia fazer-me a gentileza de tirar as luvas?
Naquele instante, algum bateu  porta. Silncio total no aposento. Ningum se moveu. Todos olharam para a porta. Nova batida.
Com um gesto quase imperceptvel de cabea, o prncipe autorizou Didier a abrir a porta.
	 o sr. Armstrong  informou ele.
Alan Armstrong entrou no quarto com um sorriso largo. Christina calculou alguns segundos para o sorriso desaparecer. Ela escondeu as mos nas costas.
	Querida.  O abrao do pai pegou-a de surpresa. Ele sempre preferira demonstrar seu afeto com presentes caros, nunca com gestos. E esperava v-lo furioso e no feliz.  Desculpe a demora, Alteza. Mas eu estava telefonando para minha mulher.
Mame j sabe, pensou Christina desolada.
	Como ela est?  perguntou ela.
	Muito bem.
Bem? Sua me? No, no era possvel. Ela s no acompanhara o marido a San Montico pmrque descobrira uma nova ruga ao redor dos olhos. Ato contnuo, marcara uma consulta de emergncia, incluindo passagem area, com seu cirurgio plstico, em Beverly Hills. Exagero era o nome do meio de Claire Armstrong.
	Posso ver o anel, Alteza?  pediu Alan.
	Se a srta. Armstrong tirar as luvas...
	Faa o que o prncipe disse  murmurou o pai dela.  O que quer que ele diga.
	Sim, senhor.  Ela tirou as duas luvas e estendeu a mo esquerda para o pai.
	Interessante.  Alan tentou girar a jia. Christina esperava pela reprimenda do pai. Esperava que, mais uma vez, ele expressasse seu desapontamento. Em vez disso, o sorriso alargou-se ainda mais.  O anel no est saindo, no ?
	No, no est saindo, sr. Armstrong  disse Didier.
	No est saindo  repetiu o marqus.
	Mas vai sair!  O prncipe Richard forou um sorriso.
 O anel no serve para ela.
Os outros trs homens trocaram olhares cmplices, e Christina teve a sensao de que era a nica a no partilhar de um terrvel segredo.
	Gostaria que Christina permanecesse no palcio  disse o prncipe.
Diga que no, papai. Diga no.
	 compreensvel, considerando as circunstncias  Alan assentiu.  Providenciarei para que a bagagem dela seja trazida para c. Discretamente, claro. O prncipe Richard sorriu satisfeito.
	Sua presena tambm ser bem-vinda, sr. Armstrong.
Fique, papai. Por favor, fique.
	Obrigado, Alteza, mas no ser necessrio.  Alan olhou para o anel no dedo da filha e riu.  Tenho que pensar em tantas coisas, que duvido que consiga dormir esta noite.
Finalmente, ele faria alguma coisa. Christina suspirou aliviada.
	No se preocupe.  O pai acariciou-lhe o brao.  Cuidarei de tudo.
Menos mal. Ela no estaria sozinha. Porm, seu pai estava reagindo com muita calma, diferentemente de outras ocasies em que ela se envolvera em apuros.
	Voc no est bravo?
	Um pouco surpreso  admitiu ele.  Mas bravo, no.
Decididamente, ela era a nica excluda do compl. Definitivamente, alguma coisa estava acontecendo.
	Meu tio o acompanhar, sr. Armstrong  informou o prncipe.
Christina queria que o pai ficasse. Queria dizer-lhe o quanto apreciava a ajuda dele. Queria dizer-lhe o quanto o amava. Mas Alan Armstrong no lhe deu chance de dizer nada.
	Durma bem, minha filha.  Alan beijou-lhe a testa.  Estou muito orgulhoso de voc, querida.
Christina olhou-o boquiaberta. Durante anos, ansiara ouvir o pai proferindo essas palavras. Tudo o que ela queria, era ser uma boa menina e deixar os pais orgulhosos. Mas as coisas no deram muito certo. Ela acabava sempre envolvida em problemas, mesmo sem querer. O anel colado em seu dedo era o exemplo perfeito. Com exceo de manter o caso longe da imprensa, qual a diferena entre essa e as confuses anteriores?
Richard no desistia. Ele tentou de tudo, mas nada funcionara. Sabonete, loo cremosa, vaselina. O anel continuava firme. Suas ideias s esgotavam.
E o tempo tambm.
J passava das duas da madrugada. Ele no contara nada  me, nem ao resto do palcio, sobre Christina e o anel. Mas no poderia guardar segredo para sempre. Logo amanheceria, e com a luz do dia, a verdade viria  tona, assim como a notcia sobre o anel e sobre quem o estava usando se espalharia rapidamente.
Se o povo acreditassem que a "magia" do anel escolhera Chris-tina para ser a noiva do prncipe, e se ele a desposasse, os costumes e as tradies supersticiosas da ilha se fortaleceriam ainda mais.
A lenda selaria no s o destino dele, mas o de San Montico tambm. Com ideias arcaicas, como lendas e contos de fadas, San Montico nunca chegaria  modernizao e os desejos de seu pai nunca se realizariam. Richard no permitiria que seu pas parasse no tempo.
Vasculhando o armrio do banheiro, ele encontrou um vidro de leo.
	Vamos tentar com isto, srta. Armstrong.
Retirando a mo de uma vasilha cheia de gelo, Christina encostou-se no gabinete da pia.
	V em frente, Alteza. E como parece que este anel no vai sair do meu dedo num futuro prximo, pode chamar-me de Christina. Voc tambm, Didier.
Parado ao lado de Richard, Didier sorriu.
	Christina  um nome bonito. Combina com uma princesa.
Princesa Christina? Richard comprimiu os lbios. Didier e suas piadas! As artimanhas dele no dariam certo. Christina no se tornaria sua esposa. No se tornaria Sua Alteza Serenssima, princesa de San Montico. Contrariando a lenda, o anel no dedo dela no significava nada. S ele decidiria quem seria a prxima princesa. E, certamente, no seria Christina Armstrong.
E com Didier por perto, demonstrando abertamente sua aprovao, s complicaria ainda mais a situao.
	Deixe-nos, Didier.
	E o anel, Alteza?
- Eu resolvo isso.  Richard abriu o vidro de leo.  Voc precisa dormir, Didier. Amanh, teremos um dia cheio. Didier concordou com um gesto de cabea.
	Vou preparar um quarto para Christina, Alteza.
	Ela fica aqui.

	Aqui?!  Christina quase gritou.  Eu no posso dormir aqui.
	Eu no posso dormir aqui, Alteza  ele a corrigiu.  Posso perguntar por qu?
Ela estreitou os olhos.
	Porque este  o seu quarto de Sua Altezal  Ela olhou ao redor.  Onde Sua Alteza vai dormir?
	Aqui, claro!  Richard riu da expresso indignada, do tom surpreso da voz dela.
Christina tinha um charme inocente todo especial. Pura encenao, ele tinha certeza. As americanas fariam qualquer coisa por um ttulo de nobreza. A ex-noiva o ensinara uma lio valiosa, ainda que dolorosa.
	Christina, o anel pertence  minha famlia h muitas geraes. H muitos sculos. Prefiro ficar perto dele.
	Sua Alteza pode trancar-me num quarto, numa torre, se quiser, com um batalho de guardas fortemente armados. No vou fugir, Alteza. Prometo.
As promessas dela no significavam nada. Alm do mais, Richard no poderia correr o risco de manter um guarda na porta do quarto de hspedes. Sua me poderia ver, ou saber pelos empregados, e saberia que alguma coisa estava errada. E se a princesa Marguerite descobrisse sobre o anel... No dia seguinte, antes mesmo do anoitecer, os convites de casamentos j teriam sido distribudos pelos quatro cantos do mundo!
Voc vai ficar aqui. Comigo.
Ela abriu a boca para falar, mas calou-se. Didier franziu o cenho.
	Alteza...
	Boa noite, Didi.
	Didier  Christina chamou-o.  Obrigada pela ajuda.
	Foi um prazer, Christina. Feliz aniversrio, Alteza.  Com uma reverncia, Didier saiu do banheiro.
Que aniversrio!, Richard pensou contrariado. Uma viagem aos desertos gelados da Sibria seria bem melhor do que aquilo. Qualquer coisa seria.
Mas ele estava ali, no banheiro, com Christina, que usava o anel real de noivado. Se a notcia vazasse, ele estaria casado com a americana em uma semana, no mximo.
Casado com uma estranha. Richard segurou com fora a mo de Christina.
Ai!
Ele soltou rapidamente a mo. No deveria ter sido to rude. - Eu... eu s queria passar o leo.
Christina encarou-o com as sobrancelhas franzidas. Duas pequenas linhas apareceram na testa, acima do nariz.
	Olhe aqui, eu quero livrar-me deste anel tanto quanto voc.  Depois de breve hesitao, ela estendeu a mo.  Besunte-me, Alteza.
Irreverente, mas interessante. Talvez em outra ocasio, em outro lugar. Absurdo. Sabendo ou no, ela envolvera-se com a lenda. Depois que removesse o anel, nunca mais ele queria ver Christina Armstrong em sua vida!
Inclinando o vidro, ele derramou leo no dedo delicado. Depois de colocar o vidro sobre o mrmore da pia, comeou a espalhar o lquido em volta do anel. As mos dele engoliram a dela, pequena e delicada. Christina estremeceu.
Ela enrubesceu.
	Eu posso fazer isso, Alteza.
	No. Eu fao.
Richard percebeu um brilho de desafio nos olhos dela. Mesmo assim, ela estendeu a mo. Tanto melhor. Pelo menos, ela sabia obedecer. Devagar, espalhou o leo pelo dedo todo, principalmente sobre o anel. No notara antes as unhas esmaltadas de rosa-plido. Como sua me costumava usar, antes da morte do pai dele.
Mas uma manicure francesa no fazia uma princesa.
	O que  isto?  Christina perguntou.
De novo, ela esquecera de dirigir-se a ele como "Alteza".
	leo.
Com a mo direita, ela pegou o vidro e leu o rtulo.
	leo de massagem?
Ela precisava de uma aula sobre protocolo real.
	Sim.
	Interessante.  Christina recolocou o vidro sobre o mrmore.  Sua Alteza sempre tem um estoque de leo para massagem? Ou tivemos sorte esta noite?
Aquela era a mulher mais irritante que ele j conhecera. Impassvel, ele continuou friccionando o dedo.
	Foi um presente.
	Eu tinha certeza.
Ignorando o tom irreverente, Richard procurou lembrar-se de que ela era americana, que no estava habituada s formalidades da aristocracia real. Ele tentou tirar o anel, mas este continuava to firme quanto uma rocha. Recusando-se a desistir, ele derramou mais leo. Seus dedos deslizaram sobre os dela, o atrito das peles aquecia o leo espalhado entre as mos de ambos.
Macia. Sob os dedos, ele sentia a maciez da pele dela. A fragrncia do perfume francs invadia-lhe as narinas. No era  toa que Didier insistira em ficar para ajud-los. Era muito agradvel. Richard observou a imagem refletida no espelho, at Christina perceber. Piscando, ela desviou o olhar. Ele tambm.
Ele no deveria estar apreciando aquilo. No era um jogo, nem uma pea de teatro. A pele de Christina no era macia. A mo de qualquer mulher pareceria macia sob uma camada de leo para massagem.
De novo, ele puxou o anel.
Nada.
Precisava pensar em algo. Uma nova tcnica. Talvez devesse tentar as juntas inchadas. Sim, era isso.
Deixando o leo agir como lubrificante, Richard massageou o n do dedo. Certamente, funcionaria. Os dedos de Christina eram longos, elegantes. Conteve-se para no perguntar se ela nunca pintava as unhas com esmalte vermelho.
Seus olhares se encontraram.
	Oh, Alteza  ela disse, corando.  Este  o dedo errado! 
Richard soltou a mo dela abruptamente. No tinha como explicar o lapso, nem por que sentia-se como uma criana pilhada em alguma traquinagem.
	Deixe que eu tento.  Christina puxou o anel.  Ainda est colado, Alteza.
Ele tambm.
Enquanto o anel estivesse no dedo de Christina, ele tambm estaria colado a ela.
Indo at a pia, a moa lavou as mos.
	O dedo est muito inchado. No acredito que consegui remos tirar o anel do meu dedo esta noite, Alteza.
Eles estavam tentando por muito tempo. Tempo demais. Richard notou as olheiras de Christina.
	Amanh cedo, tentaremos de novo. Voc deve estar cansada.
Os lbios dela se curvaram num sorriso encantador.
	Estou sim, Alteza, mas se quiser continuar, entenderei perfeitamente. Sei que deseja o anel de volta.
A sinceridade na voz dela, surpreendeu-o, assim como a disposio de continuar, apesar do cansao. Ele estava acostumado com as pessoas sempre exigindo alguma coisa dele. Poucas ofereciam algo em troca.
	No, vamos esperar at amanh.  Richard percebeu que o vestido dela j estava amassado, demonstrando sinais da longa noite. Ela no podia dormir com o vestido de baile.
 Vou arrumar algo para voc dormir.
Christina enxugou as mos na toalha.
	Estou bem assim, Alteza.
O corpete justo levantava os seios e o decote "V" realava as linhas arredondadas.
	Realmente, seu vestido  lindo, mas acredito que o costureiro no tinha a inteno de transform-lo em camisola. Venha comigo.  Richard abriu o armrio de mogno em seu quarto. Procurou entre as roupas e tirou a blusa de um pijama verde da gaveta.  Pode vestir.
Christina correu os dedos pelo tecido.
	 de seda, Alteza.
	Qual o problema?
	Nenhum.  muito bonita. No quero estrag-la. Pode emprestar-me uma camiseta?
	Voc no vai estrag-la.
Ela deu de ombros.
	 o que sempre dizem  resmungou Christina antes de entrar no banheiro e fechar a porta.

CAPITULO III

O prncipe Richard no disse uma palavra, mas Christina podia notar, sentir a diferena. Durante o banho, ele se transformara no prncipe encantado que ela conhecera no imenso hall, o prncipe sensual que balanara seu corao.
Ele saiu do banheiro e parou no meio do quarto. O sorriso irresistvel, o olhar cheio de ansiedade e desejo. O olhar penetrava, acariciava, fazendo-a sentir-se uma mulher desejvel.
E Christina ressentiu-se por isso. Ressentiu-se pela fraqueza, pela prpria vulnerabilidade.
Mas no podia evitar essa sensao.
O homem poderia conquistar o corao de qualquer mulher, se ele se dispusesse a isso.
No o corao dela.
Com toda sinceridade, ela preferia a cara feia de Sua Alteza, em vez da linha sensual que curvava os lbios dele.
Lbios feitos para mordiscar, para saborear, para beijar.
Calma!,- pediu a si mesma. Eram apenas lbios. Lbios reais com os quais ela no queria absolutamente nada. E da que sua odiosa personalidade no diminua seu sex appeal?
No estava interessada. E ponto final.
Se ela afirmava no estar interessada, devia acreditar nisso. No que isso tivesse importncia. Claro que no. Ela estava apenas exagerando, permitindo que a imaginao e os horm-nios corressem  solta.
O prncipe no lhe propusera nada. Na verdade, no dissera nenhuma palavra. Ele estava brincando. Sim, era isso. Ele brincava, para provocar-lhe uma reao. Aquele olhar convidativo no significava nada. Absolutamente nada.
Alm do mais, o prncipe Richard no gostava dela. Estava muito bravo, isso sim. Afinal, aquela moa estava usando o anel dele. Talvez, no usando exatamente, mas o anel estava no dedo dela.
O sorriso dele se alargou, realando as linhas ao redor dos olhos. Aparentemente, esquecera-se do anel. Insanidade temporria. Ou...
No, no podia ser.
Mas ele estava olhando para ela, sorrindo. Um sorriso sedutor capaz de fazer qualquer mulher desmaiar. Talvez ele quisesse toc-la, beij-la, fazer amor com ela.
Talvez estivesse mesmo exagerando nas fantasias. Ou, quem sabe, tivesse alguma coisa no rosto. Christina tocou a prpria face.
	Alguma coisa errada, Alteza?
	No.  Richard deu um passo  frente.
Christina engoliu em seco, sentindo-se completamente deslocada. Principalmente com o prncipe vestindo apenas a cala do pijama! A cala de seda verde aguava-lhe a imaginao, e a curiosidade tambm. E o que estava  mostra, era simplesmente estonteante. Os ombros largos, o peito musculoso, os braos rijos.
O tpico homem vaidoso. Saltitando pelo quarto como um bailarino. Certo, parado, no saltitando.
	No vai vestir a blusa do pijama?.
	Voc a est vestindo  disse ele.
A intimidade de partilharem um pijama, algo que ela imaginava que aconteceria apenas quando se casasse, provocou-lhe um estremecimento.
Ela no devia pensar assim. No ali, fechada num quarto com um prncipe atraente e seminu. Christina cruzou os braos e afastou-se da cama.
Da cama dele.
Mostre-lhe o anel. O sorriso dele desaparecer. O desejo estampado nos olhos dele tambm.
Mas ela no conseguiu mover-se. Parecia enfeitiada, hipnotizada pelo olhar penetrante do prncipe, por seu incrvel fsico. Queria toc-lo, ver se era de verdade.
Richard deu mais um passo na direo dela.
	Seda fica-lhe muito bem, Christina.
Um cumprimento? O pulso bateu mais forte. Ela recuou e bateu as costas na parede. Estava acuada. No tinha como escapar. Deveria estar preocupada, muito mais do que estava.
	Obrigada, Alteza.
As palavras saram enrouquecidas. Nada do tom de voz normal. O que havia de errado com ela? Nervosismo? Ela umedeceu os lbios secos.
	Quando estivermos a ss, pode chamar-me de Richard.
Richard? Ela no devia. No podia.
Ele venceu a distncia entre ambos. As pulsaes de Chris-tina bateram o recorde de velocidade. Ela olhou para a cama, depois novamente para o prncipe.
	Onde... hum... onde devo...
Faltavam-lhe palavras. A proximidade a deixava muda.
	Onde voc deve dormir?  Richard completou a pergunta.
Ela confirmou com um gesto de cabea, no confiando na prpria voz. No confiando nela mesma.
Os olhos dele cintilavam de prazer antecipado.
	Onde voc gostaria de dormir?
A pergunta era delicada. A resposta poderia envolv-la em outros, e maiores, problemas. Christina encolheu os ombros, contendo-se para no estremecer ao v-lo chegar mais perto.
	A cama  bastante grande para dois.
No, no era. S o que lhe faltava para transformar sua viagem a San Montico num desastre completo, era acordar envolta nos lenis, pernas entrelaadas nas dele, cabea recostada no peito nu.
O pai dela recomendara obedincia ao prncipe Richard, mas Christina duvidava que era isso o que ele tinha em mente. Pressionou as mos suadas contra a parede.
Com o canto dos olhos, ela procurou um caminho para escapar. No viu nada, alm de duas poltronas de couro diante da lareira. Tinham que servir.
	Quanto  questo da cama, Alteza, posso dormir numa daquelas poltronas ou no cho.
	No cho?  Prncipe Richard riu.  Seria desconfortvel demais. Certamente, h solues melhores.
Christina passou por ele e caminhou at as poltronas.
	Ficarei muito bem, Alteza. Voc... oh, desculpe-me. Sua Alteza no acredita nos lugares que em j me deitei... isto , em que dormi.  Precisava manter a boca fechada antes de falar alguma bobagem. Fingiu um bocejo.  Estou muito cansada.
	Se est to cansada, que diferena far se dividirmos a cama?
	Muita diferena  ela afirmou rpido demais.  No, eu quero dizer...
	O que voc quer dizer, Christina?
O nome flua dos lbios dele com um leve sotaque francs. A maneira como Richard pronunciava o seu nome era adorvel. No. Detestvel, na verdade.
	Eu me reviro muito na cama. E ronco.
	Foi Francis quem lhe contou?
Christina comprimiu os lbios. Sentia o rosto ardendo. O prncipe Richard sorriu do embarao dela. Uma leve batida na porta salvou-a de um constrangimento maior.
	Quem ?  Richard perguntou com impacincia.
	Sua me.
A me dele? Mais problemas! Christina e o prncipe trocaram olhares assustados.
	S um minuto  ele disse  me. Depois, virando-se para Christina:  Esconda-se.
	Onde?
Ele olhou para o banheiro e para outra porta.
	Se minha me a encontrar aqui...
Provavelmente, a bela princesa Marguerite no entenderia o motivo de Christina estar no quarto do prncipe, altas horas da noite, e ainda, vestindo a blusa do pijama dele.
Desistindo do banheiro e do closet, ele abriu a porta do armrio.
	Entre  ordenou ele.
Christina hesitou.
	A?
	Richard?  a princesa Marguerite chamou-o.  Preciso falar-lhe imediatamente.
Ele ficou tenso. Sem pensar mais, Christina entrou no armrio e ajeitou-se entre as camisas penduradas nos cabides. O prncipe Richard pegou o vestido dela e entregou-lhe. Depois, fechou a porta do armrio, deixando-a na escurido.
	No esquea meus sapatos, Alteza  avisou-o.
	Richard? Abra a porta  ordenou a me dele.
Richard despenteou os cabelos, desarrumou os lenis e empurrou os sapatos de Christina para debaixo da cama antes de abrir a porta.
	Boa noite, me.
Marguerite entrou no quarto.
	Espero no ter interrompido nada.
	No. Eu estava na cama.
	Sozinho?  Ela se voltou para olhar a cama dele.
A pergunta no merecia resposta. Ela sempre se mostrava decepcionada quando descobria que no havia mulher nenhuma no quarto do filho.
	Pensei que j estivesse dormindo, me.
	Como poderia dormir? Quero saber o que est acontecendo, Richard.  Atravessando o quarto, ela abriu a porta do banheiro.  E no me diga que dispensou os convidados por causa do ataque cardaco de seu tio. Sei que ele fingiu.
	Ele no fingiu.  De repente, Richard notou a ponta de um dos sapatos de Christina visvel sob a cama.  Tio Phillippe teve uma pequena indigesto.
	Ele estragou sua festa.
Enquanto a princesa relanceava os olhos pelo closet, Richard aproveitou para chutar o sapato mais para debaixo da cama.
	Ele pensou que estava sofrendo um ataque do corao, mame. Certamente a sade dele  muito mais importante do que uma festa.
	Mas o anel...  Ela fechou a porta do closet.  Havia tantas moas adorveis. Eu tinha esperanas de que voc a encontrasse esta noite.
	Sinto muito t-la desapontado.
	Voc no tem culpa se o anel no serviu em nenhuma mulher, ou se a festa foi interrompida.
	Parece que o destino est tramando contra mim.
Definitivamente, estava. Um pedao de tecido verde, o vestido de Christina?, aparecia por baixo da porta do armrio. A me dele no notara. Ainda.
	Eu s queria que voc conhecesse o mesmo amor e a mesma felicidade que a Lenda do Anel proporcionou  mim e ao seu pai.
	Felicidade, mame?  Richard no acreditava no que ouvia. Ele se aproximou do armrio. Num gesto bem natural, encostou-se nele e, com o tornozelo, escondeu o pedao de tecido.
 Nestes ltimos dez anos, voc no faz outra coisa se no usar roupas pretas e guardar luto por ele.
	Eu sinto muito a falta dele, meu filho. No esquea que foram vinte e um anos de alegria e felicidade, at ele morrer. As lembranas ficaro comigo para sempre, e eu s tenho que agradecer ao anel por tanta ventura.
Richard no acreditava que o anel trazia felicidade e amor verdadeiro, por mais que a me afirmasse o contrrio. Bastava olhar para ela, ouvi-la... Ela falava como se tivesse morrido tambm. Era como a princesa vivia, desde a morte do marido. Richard atribua tanta tristeza  Lenda do Anel.
	Por que no viver essa alegria novamente, mame? Voc pode se apaixonar e tornar a casar-se.
A princesa se aproximou do filho, e do armrio, e o sorriso dela desapareceu.
	Depois do amor que seu pai e eu vivemos... Jamais poderia compartilhar meus sentimentos com outra pessoa. Nem quero tentar. Tudo o que eu quero, Richard,  que se case e que tenha muitos filhos.
Ele sabia o quanto sua me desejava que ele se casasse para dar-lhe os to sonhados netos, e principalmente, o herdeiro do trono de San Montico. S de falar sobre a lenda e o baile de aniversrio, o brilho voltara para os olhos da princesa. Agora, j se apagara.
Completamente.
Que espcie de filho era ele, colocando suas vontades acima dos desejos e anseios da me? Richard no queria saber a resposta.
	Onde est o anel?
Entre a prpria felicidade e a dela, Richard hesitou. Bastava mostrar o anel no dedo de Christina. Sua me exultaria, e ele...
No, ele no podia. Se ele cedesse e casasse por conta da lenda, iria se arrepender pelo resto da vida. Tinha que romper os laos da famlia de Thierry com a Lenda do Anel. No s por ele, mas tambm pelas geraes futuras.
A procura por uma esposa ensinara-o que "amor verdadeiro" e "felizes para sempre" s existiam em contos de fadas e fantasias. Nem mesmo um anel encantado poderia mudar a realidade.
	O anel est com voc, meu filho?
	No. Est com Didier.  A mentira sara com facilidade.
	Bem, pelo menos, poderei us-lo de novo.
	No.
Os olhos azuis da princesa estreitaram-se.
Voc no quer que eu o use?
Rchard fora muito rude. Odiava desapontar a me. A ltima coisa que desejava, era mago-la. Ela era a nica mulher que o amava pelo que ele era, simplesmente seu filho. O ttulo no importava, nem os defeitos dele.
	Muitas mulheres o experimentaram, mame. Gostaria de mandar limp-lo, antes.
A ternura nos olhos dela fez com que Richard engolisse o terrvel sentimento de culpa. Ela acariciou o rosto dele.	
	Voc sempre pensa em tudo, meu filho. Como seu pai.         
A luz do sol esquentava o rosto de Christina. Lentamente, ela abriu os olhos, acostumando-se  claridade da manh. Outro dia ensolarado. Ela abriu os braos e espreguiou-se. Um banho rpido e estaria pronta para pegar o avio de volta para casa.
Levou alguns segundos para perceber onde estava. No era a luxuosa sute do hotel cinco estrelas que dividia com o pai. Estava no palcio. No quarto do prncipe Richard. Na cama do prncipe Richard.
Como chegara at a cama? Lembrava-se de que escondera-se no armrio. Certamente adormecera, e o prncipe Richard levara-a para a cama.
Ela sentou-se na cama. Olhou ao redor. Nem sinal do prncipe. S se...
Lembrou-se do sonho. Sonhara que o cavaleiro com armadura reluzente tomara sua mo entre as deles, jurando amor eterno. No sonho, no era um cavaleiro sem rosto. Era o prncipe. Fantasia e realidade fundiam-se, deixando-a ainda mais confusa em relao ao prncipe. Sentir-se atrada por ele, era uma coisa, mas sonhar com ele? No, decididamente, era loucura.
Ouviu o som de vozes vindo do banheiro. Talvez, um criado de quarto para ajud-lo a vestir-se. E se o prncipe no estivesse vestido? S faltava deparar-se com aquele homem magnfico enrolado numa toalha! Ou pior, nu!
A porta do banheiro abriu-se. Uma morena atraente, de pele bronzeada, saiu de l, seguida por duas jovens sorridentes.
	Bom dia, srta. Armstrong. Sou Delia  apresentou-se a morena.  Estas so minhas assistentes, Elise e Faye.
De minissaia vermelha e blusa justa, Delia no parecia governanta, nem empregada. Pelo menos, no do tipo que a me de Christina admitia. Quem seriam elas? Modelos ou atrizes?
	Dormiu bem, srta. Armstrong?
	Muito bem, obrigada.
	Est pronta?  Delia perguntou, uma ponta de expectativa na voz.
Imediatamente, e por motivos bvios, Christina lembrou-se de costumes brbaros, como a guilhotina, por exemplo. Aquelas mulheres iriam prepar-la para cortarem-lhe o dedo para recuperar o anel! Era a nica coisa que fazia sentido. Seu dedo era um caso perdido.
Com a mo direita, Christina pegou as luvas que estavam na mesa de cabeceira. Escondendo-as sob os lenis, vestiu-as sem pressa.
Faa-se de boba! Finja que no sabe o que est acontecendo.
	Pronta para qu?
	Para tirarmos suas medidas.  Delia sorriu, deixando  mostra os dentes alvos e perfeitos. Com maxilares proeminentes e feies exticas, ela poderia brilhar nas pginas da Vogue.  Precisamos comear logo o seu vestido, se quisermos termin-lo a tempo.
Medidas? Vestido? E o anel? Talvez ela ainda estivesse sonhando.
	No estou entendendo.
Faye aproximou-se sorrindo tambm.
	Sua Alteza no contou que viramos?
	No, no contou nada.
As trs mulheres trocaram olhares intrigados, e Elise murmurou algo. Delia fez um gesto evasivo com a mo.
	Deixe para l. Entendo perfeitamente o esquecimento dele, agora que a conheci. Sua Alteza deve ter outras coisas em mente. Afinal, ele  homem!  Ela revirou os olhos e riu. Depois, baixou os olhos.  Perdoe-me, srta. Armstrong. Eu no deveria falar assim sobre o prncipe Richard.
	No se preocupe  Christina tranquilizou-a, simpatizando com Delia.  Minhas amigas e eu tambm fazemos piadas sobre os homens. Costumamos chamar o cromossomo Y de mutao gentica. Um erro ou uma brincadeira de mau gosto, dependendo de sua perspectiva.
Aliviada, Delia sorriu.
	O marqus tem razo.
	Como assim?
	Ele disse que voc far bem a San Montico. Entendo o que ele quer dizer.  Delia estalou os dedos.  Meninas, ao trabalho!
Elise tirou um caderno de medidas do bolso. Faye tirou amostras de tecidos de uma sacola. As trs olharam para Christina.
Acho que est na hora de me levantar.
Christina saiu da cama e Faye exps as amostras diante dela. Com a fita mtrica, Elise foi tirando as medidas enquanto Delia as anotava.
	Vamos desenhar um vestido que acentue suas curvas  comentou Delia.
Christina corou.
	Agradeo a oferta do vestido, mas no posso aceitar.
Elise e Faye arfaram. Delia franziu o cenho.
	Oh, eu pensei...
Christina apontou para o vestido verde. O prncipe Richard colocara-o na cadeira.
	Tenho o vestido que usei ontem  noite.
	 bonito, mas no poder us-lo de novo.
	No?  Christina perguntou.
	No. Causaria um escndalo  explicou Faye, mostrando-lhe uma amostra de seda branca.  O que acha deste?
Christina tocou no tecido valioso.
	E lindo, mas no posso...
	Acho que voc ficar muito bem com seda natural Faye sugeriu.
	Mas esta cor...  Christina hesitou.
Delia fez alguns rabiscos num bloco de desenho.
	Marfim  uma boa escolha, mas geralmente as noivas preferem o branco.
Noivas?
Aparentemente sem perceber o espanto de Christina, Delia continuou:
	E o seu vestido de noiva e, claro, queremos que se sinta muito feliz.
Christina no ouvira direito. Claro que no.
	Meu... ve... ve... vestido de noiva?
	Difcil de acreditar, no? A ilha toda est exultando de alegria. H muito estamos esperando por esse dia.  Delia sorriu e apertou o bloco de desenho de encontro ao peito.  Pense apenas que, dentro de uma semana, voc estar casada com o prncipe Richard.

CAPITULO IV

Da janela do salo, Richard olhava para o alvoroo nos portes do palcio. Uma pequena multido, cerca de cinquenta pessoas, pelo menos, portando cmeras fotogrficas, de vdeo, microfones, esperavam por mais novidades. Um helicptero sobrevoava a residncia real.
Demais para manter Christina e o anel em segredo.
A tenso apertava-lhe a garganta. Nem mesmo o perfume das roseiras do jardim de sua me que invadiam o salo pelas imensas janelas abertas, abrandavam o sentimento de frustrao.
Jamais perdoaria o tio Phillippe por ter revelado tudo  princesa Marguerite. Nunca o palcio precisara tanto de uma torre ou de um calabouo!
	Depois da missa nupcial, teremos umdesfile pela cidade numa carruagem aberta, puxada por cavalos brancos. Depois, acontecer o jantar e o baile no palcio. A voz da princesa revelava sua imensa alegria.  Oh, e a queima de fogos. Ser o final perfeito para um dia grandioso.
	No esquea das esculturas de gelo  acrescentou tio Phillippe.  Adoro esculturas de gelo. So to... frias!
	Realmente, seria maravilhoso  concordou Alan Armstrong.
	O que acham de trinta esculturas  sugeriu Didier.  Cada uma ilustrando um ano da vida do prncipe.
Incrvel! Didier estava participando daquela loucura. Richard afastou-se da janela e olhou para as pessoas planejando seu casamento, ou "npcias", como preferia a me dele. Eles brilhavam com um entusiasmo mais contagioso do que uma epidemia de gripe. Nem mesmo Alan Armstrong, o empresrio bilionrio, conseguira escapar daquele surto de insanidade.
Caos dentro, caos fora do palcio. Richard era a nica pessoa 
s em toda a ilha. A necessidade de sair em seu iate, ficar sozinho em alto-mar, tornava-se mais e mais urgente. Mas ele no podia sair. O prncipe tinha o dever e a responsabilidade de ficar e acompanhar todo o desenrolar dos acontecimentos. Tio Phillippe bateu palmas.
	Pombas. Devemos soltar pombas, muitas pombas!
Todos concordaram, e Didier fez anotaes numa agenda.
Richard revirou os olhos. Parecia que os quatro estavam num tribunal, discutindo sua condenao  priso perptua do casamento. Se fosse uma guerra, ele estaria perdido. Toda tropa desertara, deixando-o lutar sozinho. Mas ele estava muito longe da rendio.
Tinha que descobrir um modo de escapar.
Richard recomeou a andar de um lado para o outro. O nido dos passos no assoalho de madeira ecoava pelo salo.
Marguerite suspirou.
	Oh, Richard, sente-se.
Sentar-se? Com o mundo prestes a desabar sobre sua cabea? Sua vida estava terminando! Ele parou de andar e olhou para a me.
	No me olhe assim, meu filho.  Ela umedeceu os lbios.  Eu deveria estar aborrecida. Custo a acreditar que voc no tenha me contado nada, mas suponho que a me  sempre a ltima a saber.
Era to difcil assim mo entenderem o que estava acontecendo? Ele cerrou os punhos.
	O anel ficou apertado demais no dedo de Christina. Por isso no conseguimos tir-lo. O anel no serviu.
	Claro que no, Alteza.  Tio Phillippe sorriu.
	Sua Alteza  quem sabe  disse Alan contendo o riso.
A princesa Marguerite no se conteve. Riu com gosto.
	Ele no  adorvel?
Didier sorriu. Um sorriso to irritante que, por um momento, Richard quase se esqueceu que o conselheiro era um velho e ntimo amigo.
	A lenda diz que o anel sair do dedo s depois que o casal descobrir que se ama verdadeiramente, Alteza.
O verdadeiro amor no existe.
Ele e Christina jamais seriam um casal.
	A lenda no  nada mais do que um conto de fadas acalentado pelas mes romnticas e sonhadoras.
	Ns, mes, tambm precisamos de passatempo.
	Eu posso encontrar uma noiva sozinho.
Marguerite meneou a cabea.
	Voc teve trinta anos para escolher uma noiva, Richard. A escolha no  mais sua. O anel encontrou a noiva para voc. Agora,  s apaixonar-se.
Nunca!
	Depois que Sua Alteza conhecer Christina melhor, tenho certeza que pensar diferente.  Alan sorriu.  Ela  uma menina muito meiga. Um pouco estouvada,  verdade, mas com as devidas precaues, tudo correr bem.
Marguerite esfregou as mos.
	Mal posso esperar para conhec-la.
Enquanto Alan falava da filha, Richard chamou Didier de lado.
	Voc tem que ajudar-me. Isso no tem nada a ver com a lenda.
	O fato de Sua Alteza acreditar ou no na lenda,  apenas um detalhe de menor importncia  afirmou Didier.  O anel est no dedo de Christina. Esta  a nica exigncia.
Richard franziu o cenho. Fato e fico tinham se fundido, na cabea e na vontade daquelas quatro pessoas. E isso significava um coisa. Se a famlia dele estava levando o casamento a srio, o povo de San Montico tambm levaria.
Ele precisava fazer algo.
Fizera uma promessa ao pai e queria cumpri-la. Para isso, precisava provar que a lenda falhara. Como?
Ele coou o queixo, sentindo a barba despontando. Esquecera de barbear-se. Nunca esquecera de barbear-se. Aquela histria o estava transtornando. Mas precisava manter o autocontrole.
Um criado de libr abriu as portas do salo. Christina entrou, rosto corado, blusa do pijama, descala e luvas brancas.
	Alteza, corri o palcio inteiro  sua procura. H um terrvel mal-entendido. Trs mulheres entraram l no seu quarto e tiraram minhas medidas para um ves... Papai?
Alan levantou-se rapidamente. De to vermelho, seu rosto parecia a ponto de explodir.
	Voc andou pelo palcio vestida assim?
Richard imaginava os comentrios dos criados ao verem aquela americana de pijama, despenteada, descala, procurando por ele.
Tarde demais para preocupar-se com isso. Talvez algum dia, pudesse dar boas gargalhadas daquilo tudo. Enquanto isso...
	A cor fica-lhe muito bem  comentou Marguerite.  Voc no acha, Alan?
A pergunta deu tempo ao pai de Christina para recompor-se.
	Sim, Alteza, acho.
Richard admirava os esforos da me para atenuar a situao constrangedora. Mas no justificava a presena inesperada de Christina, nem sua aparncia inapropriada. S mesmo uma americana!
	O que aconteceu de to grave que nem teve tempo de vestir-se?
	Desculpe-me, Alteza, mas entrei em pnico.  Ela ajeitou as luvas.  Nem pensei no que estava vestindo. Tinha que encontr-lo e esclarecer esse engano. Elas tiraram minhas medidas para o... vestido de casamento.
Richard sentiu o rosto em brasas.
	Me.
	Sim, Richard?  Marguerite entendeu o pedido mudo do filho. E falou como se confeccionar um vestido de noiva fosse uma tarefa corriqueira.  S temos uma semana. Delia ter de correr contra o relgio, para terminar a tempo. No quero desperdiar um s minuto.
	Delia  uma estilista muito conceituada  tio Phillippe explicou a Alan.  Estou curioso para ver o que ela vai desenhar para Christina.
Christina aproximou-se mais.
	Eu no preciso de um vestido de noiva.
	Voc est usando o anel  Marguerite disse.
Christina arregalou os olhos.
	Sua Alteza j sabe sobre o anel?
	San Montico inteira sabe  respondeu a princesa.
	Bem, eu no tenho culpa. O anel parece colado no meu dedo.  Christina escondeu as mos nas costas.  Vou conseguir tir-lo.
Talvez com a explicao de Christina, as pessoas entendessem a verdade. Era uma esperana para Richard.
	E a lenda?  tio Phillippe perguntou.
Christina cerrou as sobrancelhas.
	Que lenda?
Todos olharam para ela. Richard tambm.
	A Lenda do Anel.
Ela deu de ombros.
Como ela no sabia? Richard no acreditou.
	Todos conhecem a lenda. Saiu em todos os jornais e revistas.
	Eu no...
Alan pigarreou, interrompeu-a:
	A imprensa no d trguas  nossa famlia, principalmente  Christina, que  minha nica filha e herdeira. Ela prefere levar uma vida mais comum. Por isso, se mantm  distncia dessas... bobagens.
Aparentemente, todos entenderam. Menos Richard.
	Voc no sabia nada sobre a lenda?
	Nada, Alteza  assegurou Christina.
	Talvez Sua Alteza devesse falar-lhe sobre a lenda do Anel  Didier sugeriu.
	Sim, querido.  Marguerite cruzou as mos, pousando-as graciosamente no colo.  Conte-lhe.
Richard ficou furioso.
	Uma vez que acredita tanto, Didier, fale voc sobre essa pretensa lenda.
	Ser uma honra, Alteza.  Com um sorriso triunfante nos lbios, e ignorando os olhares furiosos de Richard, Didier voltou-se para Christina.  H muitos sculos, um prncipe de Thierry jurou que nunca se casaria por acreditar que no encontraria a mulher amada. Nem entreas moas mais bonitas, nem entre a realeza europeia. A me ficou muito preocupada, pois queria que o filho se casasse e que tivesse um herdeiro. Ento, ela pediu a uma feiticeira que encantasse o anel de noivado. O encanto garantia que o anel s serviria no dedo da mulher a quem o prncipe amasse de verdade.
Didier fez uma pausa, mas ningum ousou interromp-lo.
	A me deu ao prncipe o anel encantado. Se o anel no servisse no dedo de nenhuma mulher at a meia-noite do dia do trigsimo aniversrio dele, ela no tocaria mais no assunto do casamento e do herdeiro. Entretanto, se o anel servisse no dedo de alguma moa, o prncipe teria que despos-la ou abdicar o troco em favor do irmo mais novo.
Com o canto dos olhos, Didier percebeu a expresso contrariada do prncipe Richard. Suspirando, prosseguiu:
	O prncipe, conhecido por sua arrogncia, aceitou o desafio da me. Na noite de seu trigsimo aniversrio, a filha de um dos convidados, um comerciante estrangeiro, provou o anel e no conseguiu tir-lo do dedo.
Os olhos de Christina brilharam.
	Ento eu no fui a nica!
	No, voc no foi a nica  assentiu Marguerite.
Christina respirou aliviada.
	Graas a Deus!
Didier continuou:
	O prncipe resistiu ao casamento, mas a perspectiva de perder o trono fez com que reconsiderasse e casasse com a moa.
	Como ela conseguiu tirar o anel?  Era isso o que mais preocupava Christina.
	O prncipe apaixonou-se por ela, e assim que admitiu seu amor, o anel saiu do dedo da moa.
	E tiveram seis filhos  Marguerite acrescentou.  Seis.
	 uma histria bonita, mas lendas no so verdades.  Christina perscrutou o rosto de cada um, em busca de apoio.
 So apenas., lendas!
	Exatamente.  Richard cruzou os braos. Pelo menos, Christina era bastante sensata para no acreditar em lendas e magia.  So supersties.
	Conte-lhe a verdade, Richard  Marguerite ordenou num tom suave.
O prncipe Richard hesitou.
	Lendas no so verdades, mas o povo de San Montico acredita nelas. Esse  o problema.
	Que problema?  Christina perguntou.
	Est comeando a ficar interessante  Marguerite sussurrou e Didier riu. Tio Phillippe sorriu para Alan.
Richard no podia proferir as palavras. Olhou para o teto ricamente decorado.
	Didi.
	Voc tem que casar-se com o prncipe Richard em uma semana, ou ele perder o trono em favor do tio, o marqus.
Christina abriu os braos.
	Mas isso ...  loucura!
Marguerite riu.
	Richard, ela  simplesmente adorvel. Um pouco irreverente, mas nada que no possa ser reparado.
	Reparado?  Christina respirou fundo e expirou lentamente.  Admito que  uma histria romntica, Alteza, mas no estamos vivendo na Idade Mdia. As pessoas no se casam por causa de uma lenda. Nunca ouvi nada mais ridculo.
Bonita e inteligente, uma combinao potente que, antes, o teria irritado. A resistncia dela  lenda, fez Richard sorrir.
	Concordo plenamente, Christina.
Se ele pudesse contar com a resistncia dela ao casamento... Porm, no momento em que ela se desse por conta de que o ttulo de princesa e um reino acompanhavam os votos de casamento, certamente, o discurso seria bem diferente.
	Pelo menos, eles esto de acordo em alguma coisa Alan comentou.  J  um bom comeo.
	O anel no serve  Richard insistiu, como se a repetio da frase acabasse surtindo efeito.
Com um gesto de mo, Marguerite descartou as palavras dele.
	O anel j escolheu Christina.
	No, mame, o dedo est inchado.
Christina concordou.
	 isso mesmo.
	Crianas, crianas... Vocs no entenderam ainda?  assim que a magia funciona  explicou Marguerite.  Independente do inchao, o anel no est colado. Assim que se apaixonarem, o anel sair facilmente. Vocs devem se casar.
Christina parecia uma borboleta apanhada numa rede. Como conseguiria escapar sem machucar-se? E Richard? Ela olhou para o pai.
	Como posso casar-me com ele, papai?
	Simplesmente diga "sim", meu bem.
	No. No posso.
	Voc pode.  Alan acariciou-lhe o ombro.  E dir.
	Mas...  Christina hesitou.  Eu no gosto dele.
Todos riram. Todos na sala riram. Todos, no. Menos Richard e Christina.
Sentada na cadeira forrada de brocado, Christina tinha a sensao de estar esperando que Mozart comeasse a tocar sua mais recente composio para uma seleta e real audincia. Mas estava apenas esperando o prncipe Richard falar o que quer que precisasse dizer.
	Christina.  A postura determinada do queixo do prncipe, emprestava-lhe uma expresso confivel.  O que voc disse no salo  exatamente o que voc pensa?
Hora da verdade. Endireitando-se na cadeira, Christina cruzou as mos enluvadas.
	Desculpe se eu o ofendi. No deveria ter dito que no gosto de Sua Alteza. Afinal, mal nos conhecemos. Para falar a verdade, Sua Alteza me  indiferente.
	Indiferente?  Richard comprimiu os lbios.  Voc  sempre assim to...
	Normalmente, sou muito pior, Alteza.
	Por que isso no me surpreende?  Ele suspirou.  Voc percebeu que o anel em seu dedo no significa nada para mim, no ?
	Realmente?
Ele confirmou com um gesto de cabea.
	Graas a Deus!  Christina sorriu.  Por um momento, achei que teramos que nos casar.
	Voc no quer casar-se comigo?
	No, Alteza.
	Mesmo sabendo que se tornar princesa?
	Nem que eu me tornasse rainha.
O prncipe Richard observou-a atentamente com a testa franzida.
	Alm da indiferena, h outra razo para no querer casar-se comigo?
Ela ferira o orgulho dele. Ele era um prncipe, mas era homem. Christina hesitou.
	H muitas razes.
	Muitas?  Os olhos dele escureceram.  Poderia enumer-las?
Ela soltou a respirao.
	Bem, detesto o modo como a imprensa me critica, afirmando que no estou  altura da tradio dos Armstrong. Durante toda minha vida tenho sido o alvo dos paparazzi, e estou cansada. Quero viver longe dos olhos da mdia. Para tanto, terei que viver na obscuridade, longe dos refletores. E isso no ser possvel se eu me casar com um nobre.
	No, no ser possvel  admitiu ele.  E as outras razes?
	Filhos.
Ele cerrou as sobrancelhas.
Voc no quer filhos?
	Quero uma fazenda, no um castelo, cheio de crianas.
Ela queria esconder seus filhos da notoriedade, das expectativas, das cobranas, com as quais ela crescera. Dos pequenos prncipes seriam exigidos um certo tipo de vida, certos comportamentos, obedincia aos protocolos. Exatamente como da pequena herdeira.
	Quero criar minha famlia numa cidade do interior, no no estrangeiro, numa fazenda ou num stio. Um lugar como Wyoming ou Montana, com muito espao, animais, cu azul e, sem poluio. Onde se possa andar descala, brincar na terra, na lama, correr na chuva, sem que ningum d a mnima importncia para isso. Onde se possa criar ces, gatos, pssaros, e outros animais, sem infringir as leis urbanas. Onde se possa conhecer e gostar realmente dos vizinhos.
	Isso parece to... comum.
Christina ergueu os ombros.
	Por isso mesmo  to atraente. Estou planejando mudar-me para o oeste.
	Montana ou Wyoming?
	Ou Texas. Quero viver uma vida completamente normal.
	No creio que esse tipo de vida seja normal na Amrica  disse ele.  Voc j esteve numa fazenda ou num stio?
	Claro.  Christina ajeitou uma mecha de cabelos atrs da orelha.  E tambm tenho visto muitas fotos e lido muito sobre stios, fazendas e... cowboys.
Richard ergueu uma sobrancelha.
	Cowboys?
	Isso no significa que eu pretenda casar-me com um cowboy. Um fazendeiro, um mecnico. So tantas as profisses, menos...
	Menos?
	No quero algum com um cargo importante, desses tempo integral. Bem, eu quero me casar um homem para quem a famlia seja prioridade. Um homem que tenha tempo para os filhos. Um homem que tenha horrio para entrar e sair do trabalho e que volte para casa todas as tardes, e no um que estenda seu expediente em reunies, jantares ou viagens de negcios.
	Seu pai viajava muito quando voc era criana.
	S viajava! Ele e minha me estavam sempre partindo para algum lugar, deixando-me com a bab.
	Ento, voc no quer casar-se comigo porque sua vida no  comum?
	Mais ou menos.
O prncipe arregalou os olhos.
	Tem mais?
	Bem, a maior razo  que eu no o amo.
Christina no queria um casamento sem amor. Devia acreditar na lenda e no feitio do amor. Porm, pelo menos uma vez na vida, tinha que ser realista. O prncipe Richard podia ser bonito e charmoso e fazer seu corao bater mais forte, mas ela no o amava.
	No posso casar-me com um homem a quem no amo.
O prncipe sorriu com desdm.
	Sabe quantas mulheres gostariam de estar no seu lugar?
De novo, ele mostrava sua arrogncia. Ela chegara a imaginar que esse lado menos encantador da personalidade dele fora apenas fruto do cansao. Respirou pausadamente, para manter a calma.
	Milhes, Alteza.
	Sim, eu...  Richard olhou para as teclas do piano.  Talvez nem tanto assim, mas algumas.
Christina devolveu-lhe o sorriso.
	Sua Alteza no deseja casar-se comigo, no  mesmo?
	No.
	Por qu?  Ela riu do espanto dele.  Sua Alteza no precisa responder-me.
	Voc respondeu s minhas perguntas. Devo responder s suas.
Christina no tinha certeza de querer ouvir. Sem dvida, ele teria tantas razes quanto ela.
	Eu mesmo quero escolher minha esposa.
Que romntico! Talvez uma pequena parte do Prncipe Encantado vivesse no prncipe Richard. De repente, ela sentiu um certa afinidade. Seu corao bateu mais rpido.
	Sua Alteza quer casar-se por amor?
	Amor? No. Se eu me casar com voc, San Montico inteira acreditar que a lenda se realizou. O povo da ilha abomina qualquer tipo de mudana ou progresso, e prefere continuar vivendo como sempre se viveu aqui. Se eu me casar por causa da Lenda do Anel, estarei enterrando de vez a possibilidade de modernizar o pas. San Montico se tornar to arcaica e ultrapassada quanto a lenda.
O tom de voz revelava o quanto o prncipe amava seu pas.
	E o amor, Alteza?
	O que tem o amor? Durante sculos, a realeza tem se casado por razes melhores do que o amor. Uma pessoa pode ser feliz sem amor.
Era demais para uma afinidade. De novo, ele destrua as esperanas dela de que contos de fada podiam existir ainda. Christina tocou no anel escondido pela luva.
	Numa coisa estamos de acordo  afirmou ele.  Nada de casamento.
	Nada de casamento  ela repetiu, encarando-o.
Uma mulher poderia perder-se naqueles olhos azuis. Mas no ela, garantiu, desviando o olhar.
	Os prximos sete dias sero muito difceis para ns, Christina  ele explicou.  Preparativos para o casamento, aparies pblicas, entrevistas.
Ela estremeceu.
	Eu preferia dispensar as entrevistas. De resto, tudo bem.
	Verei o que posso fazer.  Ele olhou ao redor, certificando-se de que estavam mesmo a ss.  Teremos que manter segredo absoluto.
	Sim, Alteza.
Ele se inclinou na direo dela.
	Vamos tirar o anel do seu dedo. Mas tudo ser feito quando ningum estiver por perto.

CAPITULO V

Christina seguiu o prncipe Richard pelo palcio. Passaram pela biblioteca e pela galeria, pela sala azul, subiram para a sala vermelha, atravessaram a sala amarela, e depois da sala branca desceram uma escada que ficava em posio estratgica, escondida por uma imensa lareira.
Teria sido mais fcil irem pelos tneis, mas ele no queria que Christina conhecesse as passagens secretas. Somente os membros da famlia real e seus conselheiros privavam dessa informao. E independente das crenas da me dele, Christina Armstrong jamais se tornaria uma de Thierry.
	Falta muito, Alteza?  Christina ofegava.
	Chegaremos logo.  Richard parou de andar.  Quer descansar um pouco?
	No, obrigada. Quantos mais rpido chegarmos, mais rpido o anel sair do meu dedo.
O olhar ansioso de Christina fez Richard hesitar. De repente, ele se deu por conta de que, verdadeiramente, no reparara nela. At aquele momento. De vestido estampado e luvas brancas, ela lembrava uma Grace Kelly jovem e ruiva. S faltava o chapu.
Oh, no! O que ele estava pensando?
Grace Kelly casara-se com o prncipe Rainier e tornara-se princesa de Mnaco. Ela e Christina no tinham nada em comum, alm da nacionalidade.
	Gaston saber como remover o anel.  Se no, Richard procuraria por um novo joalheiro real. Recomeou a andar.
Christina seguiu-o.
	Por que j no viemos aqui ontem  noite?
	Eu tentei manter segredo.
	Bem, desde que no  mais nenhum segredo, posso tirar as luvas?
	Posso tirar as luvas, Alteza  ele a corrigiu.  E a resposta  no.
Ela suspirou.
	Sua Alteza certificou-se de que no estamos sendo seguidos.
	Sim, mas prefiro que o anel no fique exposto.  Realmente as luvas eram grandes demais.  Vou providenciar um par de acordo com o tamanho de suas mos.
Chegaram ao fim do longo caminho. Richard abriu a porta de nogueira entalhada, depois digitou o cdigo para abrir a porta de ao.
	Que lugar  este, Alteza?
	A oficina do joalheiro real.
Ela deu uma risadinha.
	Por um momento, pensei que amos entrar no cofre de um banco.  Os lbios dela se inclinaram num gesto de admirao.  Isto aqui  mais seguro do que o Fort Knox!
Richard sorriu.
	As jias reais devem ser mantidas em segurana.
	Voc deve dormir sossegado, sabendo que esto bem protegidas.  Christina passou por ele e entrou na sala sem janelas, o vestido balanando ao movimento sensual dos quadris. A sandlia de tiras acentuava as pernas compridas e os tornozelos delicados.
Richard comprimiu os lbios, irritado. Sabia que no deveria estar reparando naqueles detalhes.
Naquele momento, Gaston Carpentier, o joalheiro real, entrou na oficina. Ele depositou a maleta preta sobre a mesa.
	Perdoe-me por faz-lo esperar, Alteza.
Richard levantou-se.
	Quero que tire o anel do dedo da srta. Armstrong imediatamente.
	Tentarei, Alteza.  Gaston cumprimentou Christina.  Bom dia, mademoiselle. Posso ver o anel?
Ela olhou para Richard que concordou com um gesto de cabea. Ela tirou a luva esquerda e estendeu a mo. Gaston ajeitou uma lupa no olho direito.
	Sua Alteza tentou remov-lo com qu?
	Loes e leos.
	Vaselina, sabonete e gelo  Christina completou.
Gaston estudou o dedo dela.
	Humm.
Por que demorava tanto? Richard queria o anel fora do dedo de Christina e logo. Depois, ela passaria uns dias na praia, e ele voltaria a governar o pas. Um plano perfeito.
As esperanas dele concentravam-se no homem alto, magro, de bigode grisalho. Gaston pegou um pote de vidro de dentro da maleta e abriu a tampa.
	Isto deve funcionar, Alteza.
O prncipe olhou para a mistura rosada.
	O que  isso?
O joalheiro pegou uma quantidade do creme e espalhou-o no dedo de Christina.
	Uma frmula especial.
	O cheiro  bom  Christina brincou.
	Trata-se de uma receita secreta passada aos joalheiros reais, atravs de geraes  explicou Gaston.  Creio que foi inventada durante a Renascena.
Richard no estava interessado em histria, mas sim, na eficcia da frmula.
	Quanto tempo precisaremos esperar?
	Alguns minutos, Alteza.  Gaston lavou e enxugou as mos.  Est gostando de San Montico, srta. Armstrong?
	San Montico  muito bonita. Gosto muito das estradas de pedras e das ruas estreitas.  um perfeito carto postal. As pessoas so educadas e prestativas. Eu me perdi quando ia para a praia de Astarte e um homem muito gentil prontificou-se a mostrar-me o caminho.
	Astarte...  Gaston suspirou.  Uma das jias de San Montico. Acho que os americanos no esto acostumados com praias naturais.
Christina corou.
	No, mas em Roma...
Gaston riu.
Era muita conversa fiada! Impaciente, Richard olhou para o relgio.
	J deu o tempo?
	Sim, Alteza.  Com uma toalha, Gaston retirou o excesso do creme do dedo de Christina. Depois, girou o anel numa tentativa de remov-lo. Tentou de novo.
	Parece que no deu certo, Alteza.
	Deixe-me tentar.  Richard girou o anel, puxou-o com fora, at as lgrimas brilharem nos olhos de Christina.  Ainda est colado.
	No entendo.  Gaston alisou o bigode.  Minha frmula falhou, Alteza.
Richard tentou novamente. O aro continuava fixo, firme. Ele enxugou as mos.
	Temos que tentar outra coisa.
	Outros mtodos so um tanto... brbaros  Gaston afirmou.  Poderiam machucar a srta. Armstrong.
Richard no desistiria sem antes tentar todas as possibilidades.
	Em que voc est pensando?
	Poderamos enrolar o dedo de Christina com fio de ao.
A alternativa no parecia to brbara. Richard esperou pela reao de Christina. Ela limpou as mos com um pano mido.
	V em frente.
Gaston hesitou.
	Isso poder machuc-la.
Ela estendeu a mo.
	Parece que no temos muitas opes.
	Tanta coragem  caracterstica de uma princesa  Gaston resmungou enquanto tirava uma rolo de arame de dentro da maleta.
Depois de enrolar firmemente o arame ao redor do dedo de Christina, Gaston tentou tirar o anel sob o olhar ansioso do prncipe.
Em vo. Algumas tentativas depois, Gaston rendeu-se s evidncias.
	No tem jeito, Alteza.
Cuidadosamente, Christina desenrolou o fio de arame. O joalheiro examinou o dedo inchado.
	Quer uma massagem ou prefere gelo?
Ela flexionou o dedo.
	No se preocupe. Estou bem.
Inconformado, Richard suspirou. No desistiria enquanto no visse o anel de volta ao estojo de veludo. Tinham que fazer alguma coisa.
	Corte-o  o prncipe ordenou.
Gaston arregalou os olhos.
	Como Sua Alteza pode sugerir-me tal coisa?
	Voc poder sold-lo depois.
	Desculpe, Alteza, mas no posso cortar o dedo da srta. Armstrong.
Boquiaberta, Christina levou a mo esquerda ao peito.
	O dedo dela?!  Nem Richard pensara em algo to drstico. Ainda no.  Eu estava falado do anel.
	Oh, nesse caso...  Uma ruga surgiu na fronte do joalheiro.
 O anel  insubstituvel. Se alguma coisa no der certo, Alteza...
	Nada dar errado.
	Mas...
	Eu assumo a responsabilidade.  Richard olhou para Christina, buscando sua aprovao.  Christina?
Mesmo com o rosto plido, ela mantinha a cabea erguida.
	Temos que tentar, Alteza.
	Pode comear  ordenou o prncipe.
Gastou pegou uma pequena serra eltrica e colocou os culos protetores.
	Tem certeza que...
Christina estremeceu.
	Sim.
	Fique com a mo bem firme, mademoiselle.  Gotas de suor brilhavam na testa de Gaston.  Vamos trabalhar bem devagar.
	Vai dar tudo certo  Richard tranquilizou-a.
Ela riu.
 Fcil falar, no, Alteza?
Os olhares se encontraram e Richard sentiu-se arrastado pelos olhos cor de esmeralda. Foi uma sensao diferente de tudo o que ele j experimentara. Desde a morte do pai, ele sempre fora o pilar, aquele em quem todos se apoiavam. E no entanto, Christina estava ali, por ele, de um modo como ele nunca imaginara.
	Para sua proteo, vire o rosto, srta. Armstrong.
Christina obedeceu, e ainda protegeu os olhos com a mo direita. A lmina encostou no anel, espalhando fascas. O som dos dentes no metal era suficiente para assustar. Um segundo depois, o rudo cessou e dois pedaos de metal caram ao cho. Gaston para os pedaos de lmina.
	A lmina quebrou.
	Pegue outra  ordenou o prncipe Richard.
Gaston no discutiu. A nova lmina partiu-se em duas, exa-tamente como a primeira. E assim aconteceu com as outras. Depois da quarta lmina, Gaston colocou a serra sobre a mesa e retirou os culos.
	 intil, Alteza. O encanto protege o anel.
	No h encanto nenhum, Gaston.  O prncipe no desistia.  Suas lminas esto com defeito.
	Todas?  Christina questionou-o.
Richard ignorou-a.
	Tente alguma outra coisa.
	J tentei de tudo, Alteza. O anel no pode ser removido.
Os msculos do rosto de Richard se contraram.
	Voc deve ter alguma outra soluo.
	Sinto muito, Alteza. No h mais nada que eu possa fazer.  Gaston fechou a maleta de couro preto.  Fiz o possvel, mas no h mais dvidas.
	Que dvidas?
	A Lenda do Anel, Alteza.  Gaston sorriu.  E verdade.
O anel serviu no dedo de Christina e s o verdadeiro amor poder remov-lo.
Eles se olharam e Christina experimentou um momento de magia. Antes que ela pudesse entender a sensao de frio no estmago, a princesa Marguerite apareceu na porta da sala, envolvida numa aura de elegncia e estilo. Era a prpria imagem de realeza e graa.
	Richard, Christina...  a princesa cumprimentou-os.  Eu estava procurando por vocs. Temos que discutir alguns  detalhes sobre o casamento.
	Mais tarde, mame.  O prncipe tocou no cotovelo de Christina.  Vamos.
Na sala amarela, depararam-se com Delia e suas assistentes.
	Oh, Christina. Finalmente!  exclamou a estilista.  Precisamos tirar mais algumas medidas.
	Agora no, por favor.
Apressados, Christina e o prncipe continuaram atravessando as salas, em busca de privacidade. Mais adiante, encontraram o marqus.
	Crianas, vocs no acreditam nas novidades.  Ele bateu palmas.  Pombas. Encontrei as pombas.
	E agora?  Christina murmurou.
	Corra  ordenou o prncipe.
De mos dadas, como adolescentes, eles correram em direo a uma porta que dava para um caminho de pedras. Correram por alguns minutos, e ento, o prncipe parou.
	Acha que nos livramos deles?  perguntou Christina.
	Espero que sim.
	S faltou meu pai  ela disse.  Conhecendo-o bem, acho que ele j est reservando o Concorde para trazer os convidados para o casamento.
Richard estreitou os olhos.
	Ele no faria isso.
	Faria.
 Isso ...
	Terrvel  ela sugeriu.
O prncipe forou um sorriso.
	Insano.
Christina suspirou. Felizmente, sua me no estava em San Montico. Do contrrio, no haveria escapatria.
	O que vamos fazer, Alteza?
	Gostaria de saber. S sei que no podemos voltar ao palcio. Eu gostaria de pegar meu barco e navegar por a, mas no conseguiremos chegar  marina com todos esses reprteres acampados ao redor do palcio.  Ele coou o queixo, pensativo.  Conheo um lugar onde ficaremos longe de toda essa balbrdia.
	Tem certeza? Parece que sabem todos os nossos passos!
	Ningum conhece esse lugar.
Eles caminharam at chegarem a uma parede coberta de hera. Depois, seguiram por um corredor escondido pela vegetao. Um labirinto. De repente, um arco coberto por primaveras. As flores vermelhas contrastavam com o verde escuro do labirinto.
Christina arrancou uma flor e colocou-a atrs da orelha.
	 incrvel que essa confuso toda deve-se a uma lenda.
	As lendas esto enraizadas no corao e na mente do meu povo  explicou ele.  Nosso casamento s reforaria a crena nos velhos costumes e tradies.
Ela entendia perfeitamente a posio dele. Mas so as tradies que tornam cada pas, cada povo, nico. No havia nada de errado nisso.
	Voc no acha...
Richard interrompeu-a.
	Voc est comeando a acreditar... nisso?
	No, claro que no.  Ela olhou para duas pombas voando adiante. O marqus? Mgica?  Mas no  estranho que nenhuma das lminas funcionou?
	Coincidncia.
	Esperemos que sim  afirmou Christina, mas as palavras no soaram com a convico desejada.
O prncipe lanou-lhe um olhar divertido, antes de atravessarem a entrada do labirinto.
	Este  um dos poucos lugares de total privacidade neste palcio.
	Sua Alteza costuma vir sempre aqui?
	No muito.
Ela parou e olhou para as cinco trilhas  sua frente.
	Qual  o caminho para o centro?
	Tente encontrar.
Christina seguiu pelo caminho  extrema direita. Richard seguiu-a.
	Era aqui que voc brincava em criana?
	Sim. Didi e eu passvamos o dia aqui. A copeira deixava lanches, sorvetes e outras guloseimas, na entrada. Como voc adivinhou?
Erguendo os ombros, ela apontou para a vegetao que escondia as trilhas.
	 o lugar ideal para brincar e esconder-se.
Richard sorriu.
	Este  o meu lugar favorito. S Didi tem permisso para vir aqui.
	Nem seus pais?
	Ningum. Exceto os jardineiros.
	Quando eu tinha algum problema, costumava esconder-me no closet do meu av ou debaixo da cama dele.
	Voc era apegada ao seu av?
Christina assentiu com um gesto de cabea, desejando que o av estivesse perto dela. Muitas vezes, as lembranas no eram suficientes. Especialmente, quando precisava de um conselho ou de um abrao. Como naquele momento.
	Vov Armstrong mudou-se l para casa quando eu tinha sete anos e viveu conosco at morrer, cinco anos atrs. Ele fingia no se preocupar com ningum, fazia questo de mostrar-se sempre formal e distante, mas no fundo, era uma criatura doce e afvel. Ele colocava apelido em todos os netos, e sempre nome de animais.
	Qual era o seu?
	O meu...  Christina mordeu o lbio. Jamais revelaria ao prncipe que seu apelido era Princesa. No queria estragar o clima cordial que reinava entre eles.  Bem, era um nome ridculo.  Hora de mudar de assunto.  Foi o anel que uniu seus pais?
	Infelizmente, sim.
Christina dobrou  direita. A trilha terminava num imenso jardim de topiaria, com a escultura de animais de todas as espcies e tamanhos.
	Eles foram felizes?  ela perguntou.
	Delirantemente felizes. Quase contagiante.  Richard riu.  Realmente, eles viveram uma verdadeira histria de amor e felicidade.
	Isso  muito bom.
Ele franziu o cenho.
	No sei, no. Faz dez anos que meu pai morreu e, desde ento, minha me est de luto. Ela  muito nova. Deveria casar-de se novo. No entanto, ela divide seu tempo entre o jardim e as obras de caridade.
	Foi escolha dela  Christina ponderou.
	Sim, mas...  O prncipe passou a mo por entre os cabelos.  Ela acredita piamente que foi atravs da Lenda do Anel que ela e meu pai encontraram o verdadeiro amor. No consigo convenc-la de que o amor, felicidade, alegria, independem de um objeto inanimado. Por mais que eu fale, ela se recusa a acreditar em mim.
A lenda parecia mesmo ter muito poder. Christina suspirou. De repente, o prncipe segurou-a pelo ombro, impedindo-a de bater direto num muro.
	Cuidado!
Sim, ela devia ser cuidadosa. O toque da mo dele queimava-lhe a pele. Apressando o passo, desvencilhou-se dele.
	Por que no se casou ainda, Alteza?
O prncipe deu de ombros.
	No foi por no ter tentado. Passei estes ltimos cinco anos procurando uma esposa. Inutilmente.
	No acredito  admitiu ela.  Voc  um prncipe muito bonito. Todas as mulheres do mundo caem aos seus ps!
Richard ergueu uma sobrancelha.
	Voc tambm?
Christina corou.
	Claro que no. E voc sabe porqu.
	Ah, sim.  O sorriso dele revelou a covinha na face.  O mito do cowboy!
Tanto quanto o mito do Prncipe Encantado.
	Ainda no acredito que no tenha encontrado uma mulher para casar-se.
O sorriso desapareceu dos lbios dele.
	Realmente voc no l jornais, no ?
	No.
	Seis meses atrs, fiquei noivo de uma americana. O nome dela  Thea...
	Thea Hollis-Montgomery?
	Sim. Voc a conhece?
	Thea foi colega de clube de minha prima Kelsey.  Christina lembrava-se da loira alta, bonita, elegante, cujo pai dava-lhe tudo, e todos, que ela queria.  Ela no casou com o rei Gus meses atrs?
O prncipe comprimiu os lbios.
	Casou.
Imaginando o que acontecera, Christina no conseguiu evitar o comentrio.
	Ento, ela trocou o prncipe por um rei?
	Voc tem um jeito de falar!
	Desculpe-me, Alteza.
	No precisa desculpar-se. Foi melhor assim.
	Sempre achei que ela era ambiciosa. Agora, vejo que eu estava certa.
	Obrigado, Christina.
	Por nada, Alteza.
Richard suspirou.
	Ela me deixou nesta situao. Seis meses antes do meu trigsimo aniversrio, data limite para eu me casar.
Thea o deixara tambm de corao partido. Pobre prncipe. No era  toa que ele no queria nem ouvir falar na Lenda do Anel.
	Imagino como foram esses seis meses para voc.
	Voc no imagina nem a metade, Christina  admitiu ele.
Christina no imaginava mesmo. Ela nunca se apaixonara antes. No de verdade. Mas qualquer dia, de repente...
Procurando pelo centro do jardim, ela subiu alguns degraus de pedra at a uma plataforma, de onde via o labirinto que os rodeava. Alm dos jardins do palcio, a cidade e o mar Mediterrneo. Encantou-se com a vista maravilhosa. Ela olhou para o prncipe que a observava com expresso curiosa.
	O que foi?
	Gosta daqui?
	 lindo demais.  Ela sorriu.  Voc tem sorte por viver aqui.
	Tenho, sim.  Richard se calou por um instante.  Voc no poderia fazer de um palcio, e de um reino inteiro, sua... fazenda?
	No.  Era tentador, sim. Mas o que tudo isso implicava, era desanimador demais. Ela desviou o olhar.  Provavelmente, eu colocaria fogo em tudo.
	Como na Casa Branca?
Ela o olhou surpresa.
	Voc j soube?
	No dos detalhes.
Christina no conteve o riso.
	Voc faz com que tudo parea to srdido!
O prncipe ergueu as sobrancelhas.
	E no foi?
	Absolutamente no.
	Ento, conte-me.
Christina hesitou. Depois, deu de ombros. No tinha nada a perder por contar algo que fora amplamente explorado pela mdia.
	No Natal do ano passado, o presidente, que  amigo do meu pai, convidou-nos para a ceia. Bem, as luzes se apagaram, e eu peguei um dos castiais da mesa de jantar e parei perto da rvore de Natal.
Ela umedeceu os lbios.
	Estvamos' em volta da rvore, cantando canes natalinas. Acho que empolguei-me demais, no prestei ateno no castial que segurava... bem, quando me dei por conta, os cabelos da prima do presidente estavam em chamas.
Christina esperava pela reprovao do prncipe, mas, em vez disso, ele riu.
	Imagino o que aconteceu depois.
	Espere at ouvir o resto  disse ela, adorando aqueles momentos de descontrao do prncipe.  Na pressa de ajudar a prima do presidente, coloquei o castial no cho, bem perto da rvore. Os galhos deveriam estar secos porque, de repente, viraram tochas. Felizmente, conseguiram apagar o fogo antes que o estrago fosse maior.
	E a prima?
	Est tima.  Christina riu.  Ela est usando uma peruca to perfeita que ningum diz que no so cabelos dela mesmo.
	Uma festa inesquecvel.
Ela riu de novo.
	De princesa, no tenho nada, no , Alteza?
Richard deu de ombros.
	De cowboy, tambm no tenho nada.
	No, no tem  Christina admitiu, com um sorriso encantador.  Mas voc tem algumas qualidades que compensam isso. s vezes.
	Voc tambm, Christina.  Aquela covinha parecia estar piscando para ela e o corao de Christina disparou.  As vezes.
CAPITULO VI

Aproximando-se da sala de jantar, Christina yeitou as luvas. Na dvida se deveria vesti-las ou no, optou pela discrio. Alm disso, o prncipe Richard pedira-lhe para us-las sempre e ela no pretendia provoc-lo. Ele parecia ser um rapaz decente, e no um troglodita, como o imaginara na noite anterior.
Ela parou na porta da sala. Ergueu os olhos e quase parou de respirar. O prncipe Richard estava parado no batente da porta. Ele se barbeara e a pele brilhava. Os cabelos midos estavam penteados para trs. Lindo, absolutamente lindo. Mesmo assim, um prncipe. Por mais que ela se sentisse sua companheira de crime, naquela tarde, a situao no mudara.
O casamento real no aconteceria. Ela no queria despos-lo. E ele tambm no queria despos-la.
O prncipe Richard estendeu a mo e Christina deu alguns passos  frente. O salto dos sapatos pretos afundaram no tapete. O tornozelo virou, mas, milagrosamente, Christina conseguiu manter o equilbrio. Talvez, o anel possusse mesmo poderes mgicos. Do contrrio, ela teria se estatelado no cho.
O prncipe inclinou-se.
	Christina.
Inalou o perfume seco de sabonete, e as pulsaes se aceleraram. Fez uma graciosa reverncia.
	Alteza.
	Gostou do seu quarto?
Ela se mudara para uma das sutes de hspedes.
	 adorvel. Obrigada.
	As luvas, por favor.
Talvez ela tivesse cometido uma gafe por us-las na sala de jantar. Sem discutir, ela retirou as luvas e entregou-lhe. Ele tirou outro par de dentro do bolso do palet.
	Estas ficaro melhor.
Ele se lembrara! Contendo um sorriso, Christina experimentou-as. Perfeitas.
	Obrigada, Alteza.
Richard conduziu-a para dentro da sala. Christina admirou-se com tanta suntuosidade. To grande quanto o apartamento dela de Chicago, a sala tinha duas lareiras. As paredes eram cobertas de tecido adamascado vermelho e cobrindo o piso de madeira, um tapete valiosssimo. Do teto pendiam dois belos lustres de cristal.
Dominando a sala, uma imensa mesa para, no mnimo, trinta convidados. No entanto, estava arrumada apenas para duas pessoas.
Ela engoliu em seco.
	Parece que jantaremos a ss  comentou ele.
Christina no sabia se isso era bom ou ruim. Muito tempo sozinha com o prncipe seria perigoso demais para seus hormnios. Felizmente, o corao estava imune.
	Onde esto os outros?
	Receio que estejam tramando contra ns.  Ele apontou para o candelabro apagado, para as flores no vaso de cristal.  Minha famlia tentou armar o cenrio para um pequeno romance.
Pequeno romance? Christina conteve o riso. Mesmo ignorando as outras vinte e oito cadeiras, certamente, aquele no era um dos dez lugares mais romnticos do mundo para uma mulher ser beijada. No que ela quisesse ser beijada. Bem, talvez, um beijo. Um s. Rpido.
	Voc prefere jantar em outro lugar?
Christina temia onde poderia ser esse "outro lugar". Olhou para o prncipe que puxara uma cadeira. Ela sentou-se rapidamente.
 No, Alteza. Aqui est timo.
Sentado  cabeceira da mesa, Richard tocou um sino de prata. Dois garons uniformizados entraram na sala. Um deles apressou-se em acender os candelabros. O outro serviu o champanhe.
Depois, Jean-Claude trouxe dois pratos pequenos.
	Pt in Madeira aspic, Alteza.
	Obrigado, Jean-Claude.
Jean-Claude colocou o prato na frente de Christina. Ela olhou para o pat, mas no o tocou. O prncipe fitou-a.
	No est com fome?
Na verdade, estava faminta. Absortos pelas tentativas de retirarem o anel e, depois, de fugirem da confuso, ambos esqueceram-se do caf da manh e do almoo.
	No muita.
	Se no gostar do pat, o chef preparar outra coisa.
	No  necessrio.  que...
	O qu?
Christina olhou ao redor para certificar-se de que os garons no estavam por perto.
	Se eu perder peso, o anel sair do meu dedo.
Richard comprimiu os lbios.
	Nem pense nisso.
	No temos muita escolha, Alteza.
	No ser arriscando sua sade que conseguiremos nosso objetivo.  Ele pegou a taa de champanhe.  Eu a probo, Christina.
	Mas...
	Assunto encerrado.
Christina no gostou do tom autoritrio. Quem ele pensava que era?
Sentiu, mais do que viu, que ele a observava. Quando os olhares se encontraram, Richard virou o rosto com ar displicente e apagou as velas do candelabro. Mesmo assim, Christina teve tempo de entender o que os olhos dele no escondiam.
Ele est preocupado comigo.
A constatao encheu-a de uma satisfao to grande, que Christina teve vontade de abra-lo bem forte e agradecer-lhe pelos cuidados. Queria esquecer que ele era "Sua Alteza" e cham-lo apenas de "Richard".
Apesar das boas intenes, no estava em condies de agir com tamanha espontaneidade. Em vez disso, ela se serviu de pat e bebeu um gole de champanhe.
O tempo passou rapidamente e o jantar transcorreu num clima ameno, descontrado. Sabendo que estavam sendo observados, de comum acordo, Richard e Christina decidiram conversar sobre amenidades.
Entre um prato e outro, Jean-Claude e Jacques cuidavam para que os copos no ficassem vazios.
	Esto tentando nos embebedar  Richard murmurou, num dos raros momentos em que ficaram a ss.
	Percebi  disse ela.  Realmente, esto querendo nosso casamento.
	Quanto mais rpido, melhor. Se nos surpreenderem em situao comprometedora... nosso destino estar selado.
Christina suspirou.
	Oh, tudo isto  to... irreal.
Richard olhou para a porta fechada que, provavelmente, levava  cozinha.
	No podemos fazer o jogo deles, Christina. No devemos permitir que eles venam.
Vitria significava casamento. Algo que nenhum dos dois desejava.
Jean-Claude voltou com uma garrafa de vinho tinto. Colocando um pouco num copo, submeteu-o  apreciao do prncipe, que o aprovou.
Christina no queria mais vinho. Queria apenas que os garons percebessem que o esquema no estava funcionando. Decidida a confundi-los, perguntou:
	San Montico tem sempre tempo bom, Alteza?
O prncipe encostou o guardanapo na boca.
	Sim, com chuvas ocasionais.

	Adoro andar na chuva  confessou ela, observando Jean-Claude acender o candelabro novamente.
	Eu tambm.  Enquanto bebia o vinho, o prncipe esperou que Jean-Claude sasse da sala para tornar a apagar as velas.
Depois, inclinou-se para ela.  Amanh cedo, vamos procurar um feiticeiro  sussurrou.
	Voc no acredita em magia  ela o lembrou em voz baixa.
Richard sorriu.
	Esse feiticeiro no pratica magia.  Ele olhou para a porta.  Se Jean-Claude ou Jacques aparecerem, continuaremos nossa conversa sobre o tempo.
Christina franziu as sobrancelhas.
	Que desagradvel!
	No, desagradvel  o que minha me est fazendo.  Ele mostrou as flores no vaso.  Est vendo estas rosas brancas?
A leve fragrncia misturava-se deliciosamente ao aroma da comida.
	So lindas.
	Pois . Minha me as est cultivando especialmente para o meu casamento. Ela afirma que  tradio as noivas de Thierry levarem trs rosas brancas no buque.
	Por que trs?
	Uma para o noivo, uma para a noiva e a terceira para San Montico. Eu posso...
A entrada de Jean-Claude e Jacques interrompeu o prncipe. Christina no perdeu a pose.
	A baixa presso frontal provoca tempestades. A alta presso frontal provoca seus prprios problemas.  Christina sorriu ao ver que os garons trocavam olhares confusos.  Isso responde  sua pergunta, Alteza?
Jean-Claude tornou a encher os copos e a acender as velas. Jacques serviu a sobremesa. O sorvete de pssego derreteu na boca de Christina. Doce e refrescante. Justamente do que ela precisava.
O prncipe Richard ergueu as sobrancelhas.
	A senhorita tem certeza desse fenmeno?
Os dois garons franziram o cenho.
	Certeza absoluta. Tive aulas de meteorologia na universidade. Estudamos a matria profundamente.
	Fascinante.
Christina comeu mais uma poro de sorvete, depois pousou a colher. Jean-Claude recolheu as taas e retirou-se, seguido de Jacques.
Richard tornou a apagar as velas e riu. O som grave, alegre, provocou arrepios internos em Christina. Ela atribuiu o tremor  atmosfera romntica da noite.
	Eles devem estar pensando que enlouqueci. Imagine, conversar com uma mulher bonita sobre condies climticas. Voc foi magnfica, Christina.
Magnfica? Ela ainda estava deliciando-se com a palavra "bonita".
	Acha que os enganamos?
	Completamente. Espere at minha famlia saber.
Terminado o jantar, o prncipe Richard acompanhou-a at a sute.
	Isso  o que eu chamo de conversa estimulante.
Certamente, tinham deixado os garons frustrados e entediados. Todas as vezes em que enchiam os copos com gua, eles olhavam desanimados para os copos de vinho ainda cheios. Tambm no entendiam por que as velas estavam sempre apagadas. Provavelmente, nada sabiam sobre o episdio da Casa Branca.
	Fiquei com pena de Jacques e de Jean-Claude. De verdade.
Richard riu.
	Eles se esmeraram, no ?  O prncipe estreitou os olhos.
 Diga-me uma coisa. Voc estudou mesmo meteorologia?
Ela o enganara tambm!
	No, mas assisto o homem do tempo.
Os olhares se encontraram.
	Fizemos uma bela dupla  constatou Richard.
As pulsaes de Christina aceleraram-se.
- Sim, fazemos. Isto , fizemos.
	Adorei a noite, Christina.
Ela tambm adorara.
	Foi divertida.
Richard inclinou-se e ajeitou uma mecha de cabelos atrs da orelha dela.
	Sim, foi divertida.
Com certeza, ele tinha um cheiro bom. Cuidado.
	Bem, acho vou entrar. Boa noite, Alteza.
	Permita-me.  Ele segurou a maaneta da porta.
Se o prncipe continuasse com aquele sorriso, ela permitiria que ele... No, no devia. Tinha que ficar bem longe dele. Christina tambm esticou o brao em direo  maaneta, e sua mo cobriu a dele.
Quente.
O calor da pele mscula fez com que ela prendesse a respirao. O corao disparou. Esperava ganhar um beijo de boa-noite. No, na verdade queria que Richard lhe desse um beijo de boa-noite.
No, no queria. Ele no era um homem comum. Era um prncipe. Christina retirou a mo rapidamente.
Ele abriu a porta do quarto, depois, com a ponta dos dedos, acariciou o rosto delicado.
	Voc est com medo do qu?
De voc. Ela o fitou nos olhos.
	Voc., voc tem calos.
Ele ergueu as sobrancelhas.
	De velejar.
	Mas voc  um prncipe.
	Quer saber de um segredo? A realeza no  assim to diferente.
No? Christina estava quase acreditando. O prncipe Richard irradiava confiana. A inteligncia brilhava nos cristalinos olhos azuis. Ele inspirava respeito, independente do que fizesse. Era diferente de todos os homens que conhecera. Um prncipe em todos os sentidos da palavra.
Ela conteve o mpeto de suspirar profundamente.
	Como pode dizer isso? Voc vive num palcio magnfico, no alto de uma colina e governa um pas lindo.
	Voc tem um presidente que mora numa enorme casa branca e governa uma das naes mais poderosas do mundo.
	No  a mesma coisa.
	No .  Ele se aproximou mais dela.  Voc j beijou algum da realeza, mais precisamente, um prncipe?
Recuando, ela apoiou-se no batente da porta.
	No. Isto , eu...
Richard no lhe deu tempo para concluir. Os lbios dele cobriram os dela sem a menor hesitao. Apenas um toque, leve. Suave, quente e intenso.
Ela queria mais, muito mais. Mas assim como comeou, terminou rapidamente.
	O que achou?  ele perguntou com um brilho malicioso nos olhos.
Christina no podia dizer a verdade. No podia dizer que o beijo, pouco mais que um roar dos lbios, mudara comple-tamente sua definio de como deveria ser um bom beijo. Ela cruzou os dedos.
	Tem razo, Alteza. Os nobres no so diferentes das outras pessoas.
	Tem certeza?  Richard perguntou baixinho.
O instinto de autopreservao fez com que ela concordasse.
	Tenho.
Ele riu.
	Boa noite, Christina.
	Obrigada, Alteza. Pelo jantar e... tudo o mais.
Calada, disse a si mesma. Receando as prprias reaes,
Christina entrou no quarto e fechou a porta.
Na verdade, queria que ele dissesse alguma coisa que a fizesse mudar de ideia.
Richard fechou porta de seu quarto e trancou-a. No para impedir que algum entrasse, mas para impedi-lo de sair. Podia simplesmente atravessar aquele hall e despedir-se de Christina novamente. Ningum ficaria sabendo.
A quem ele estava enganando? Ele no queria apenas despedir-se de Christina. Queria beij-la de novo. No apenas roar seus lbios nos dela. Queria...
Uma batida leve na porta.
Christina! Sorrindo, apressou-se em abri-la.
	Voc esqueceu... Tio?
	Posso entrar?
Decepcionado, Richard escancarou a porta para o marqus.
	Entre, tio Phillippe.
Phillippe bateu nas costas do sobrinho.
	O que h de errado com voc?
	Como assim?
	Voc jantou com uma bela mulher e. discute sobre o tempo?
Mesmo num palcio to grande, as notcias corriam cleres.
	Tivemos uma conversa muito agradvel.
Phillippe olhou para o teto.
	Os jovens perdem tempo com as pessoas erradas. Voc no entende, Richard? Voc tem a responsabilidade, o dever de casar-se.
Richard conhecia o discurso inteiro.
	Sei que devo me casar. Mas no agora.
	No  um capricho ou uma fantasia de sua me. Voc tem que casar-se com Christina.
	Vou casar-me com a mulher que eu escolher.
	Voc teve sua chance.
	No  fcil, tio. Sabe que fiz o possvel. Sa com mais mulheres do que voc e meu pai juntos. A imprensa considera-me um playboy quando tudo o que eu quero,  encontrar uma esposa. 
	Uma vez que voc ainda no se decidiu, talvez, a imprensa tenha razo.

CAPTULO VII

Era muito cedo ainda. O dia mal clareara. Bocejando, Christina estendeu o brao para o prncipe Richard. Com cuidado, ele enfaixou-lhe a mo esquerda at o pulso.
	Est bem assim?  ele perguntou.
Bem demais. A suavidade das mos dele, o toque dos dedos em sua pele, desencadeavam uma onda de sensualidade que se espalhava pelo corpo inteiro de Christina. Mais alguns minutos e o fogo estaria aceso. Ela tentou desvencilhar-se, mas Richard segurou-lhe a mo.
	Est timo, Alteza.
Ele prendeu a bandagem com esparadrapo e apalpou a parte enfaixada.
	No est muito apertado?
	No.  Se estivesse apertado, certamente seu sangue no ferveria tanto.  Acho que no vai dar certo.
	Ningum nos ver.  O prncipe Richard entregou-lhe os culos de sol.  As ruas esto desertas. Ainda  cedo, as pessoas ainda esto dormindo.
	Seremos reconhecidos.
	Quem nos ver, pensar que estamos em lua-de-mel.  Ele colocou um bon de beisebol na cabea. Antes de sair do quarto, ele viu o bloco de desenhos de Christina e estudou-o.
 Voc tem talento.
Na noite anterior, ela esboara um novo trabalho, um cowboy e seu cavalo. Nada definido ainda, apenas alguns riscos a lpis, mas ela apreciara o elogio.
	Obrigada.
Ele colocou o bloco na escrivaninha.
	Vamos.
	Tenho a impresso de que ser muito engraado.
	No h nada de engraado.  Ele escondeu os olhos atrs dos culos espelhados.  Vamos.
Um caminho de frutas estava parado na porta dos fundos do palcio. Christina e o prncipe Richard pularam na carroceria e esconderam-se sob a lona. Minutos depois, o caminho deixou o palcio, levando os dois clandestinos.
Quando o veculo dobrou a esquina, Christina colidiu com o prncipe. E quando virara na direo oposta, os braos fortes dele impediam-na de bater contra a grade da carroceria.
A proximidade fez com que ela ansiasse por outro beijo. Antes, porm, que a vontade se intensificasse, o caminho parou.
O prncipe Richard levantou a lona e pulou. Em seguida, estendeu a mo para Christina.
	Rpido.
Depois, seguiram por uma alameda. No havia ningum por perto, mas o prncipe olhou atentamente para os lados antes de atravessarem a rua. Pararam diante de um chal.
As paredes estavam descascando. As pedras, cobertas por hera. A porta foi aberta antes mesmo que eles batessem. Um homem baixo, de cabelos brancos e longos, cumprimentou-os.
	Entrem, por favor.
Seguindo o prncipe, Christina entrou.
Ervas e flores pendiam em vasos por todos os cantos, numa mistura de perfumes e aromas. Pedras e bolas de cristal alinhavam-se nas prateleiras, refletindo a luz das velas que iluminavam a sala.
Ela olhou para o homem de cabelos brancos e olhos azuis. De robe prpura florido, ele era a prpria imagem do mago.
	Estava  sua espera, Alteza.  O homem fez uma reverncia.  E a voc tambm, srta. Armstrong.
Ele sabia o nome dela. Seria mesmo um mago? Christina voltou-se para o prncipe, que olhava para as cartas de taro abertas sobre uma toalha de veludo vermelho, com expresso ctica.
	O conselheiro real avisou-me que Sua Alteza viria.  O homem riu. Pela expresso de Sua Alteza, percebo que no  o que esperava.
O prncipe suspirou. Estava to confuso quanto Christina.
	No  mesmo.
	No ligue para a aparncia, Alteza. Apenas confie no meu trabalho, nas minhas ervas e poes.  Ele olhou para Christina.  Merlih, ao seu dispor, senhorita.
	Precisamos de sua ajuda  disse Richard.
De novo, Merlin fez uma reverncia.
	Em que posso ajudar, Alteza?
O prncipe Richard tirou as bandagens que envolviam a mo de Christina.
	Remova o anel do dedo dela, e eu saberei como recompens-lo.
Com os olhos brilhando, Merlin aproximou-se de Cristina.
	Posso examinar o anel, Alteza?
Christina estendeu a mo. Tocando o anel com respeito, ele o estudou por todos os ngulos. Finalmente, ele levantou os olhos.
	E o joalheiro real?  perguntou Merlin.
	Ele tentou de tudo. Desde a frmula secreta at mtodos mais... brbaros.
Merlin meneou a cabea. Depois, gesticulou em direo s cadeiras ao redor da mesa.
	Por favor, queiram sentar-se. Voltarei num minuto.
Assim que eles sentaram, o mago desapareceu por detrs da cortina.
	Merlin  simptico, mas um tanto... estranho.
	Ele  excntrico, mas situaes desesperadoras exigem medidas desesperadas.
	No podemos nos desesperar, Alteza, Hoje ainda  segunda-feira.
Carregando dois frascos, um verde e o outro cinza, numa das mos, um livro com capa de couro na outra, Merlin retornou e colocou tudo sobre a mesa. Destampou os frascos.
	Qualquer joalheiro deveria saber que os mtodos convencionais no funcionam com um anel encantado.
O prncipe Richard cruzou os braos.
	O anel no  encantado.
	Apesar de todas as tentativas, ainda est no dedo dela.
A nica explicao  a magia, Alteza. Devemos anular o encanto com outro encanto.
Christina olhou para Richard, que, simplesmente, deu de ombros. De um frasco, Merlin derramou um pouco de p rosa na palma da mo. Do outro, areia branca.
Pronta?
Prendendo a respirao, Christina estendeu a mo.
Merlin jogou a mistura dos ps sobre o dedo dela. Ele fechou os olhos, ergueu as mos e murmurou algumas palavras numa linguagem desconhecida.
Tente tir-lo agora  Merlin ordenou num sussurro.
Christina tentou, mas no conseguiu nada. Nem o prncipe
Richard. Droga! Ela realmente queria que desse certo!
	O que  isso?  perguntou ela.
	P mgico de fada e de duende.
O prncipe Richard sorriu com ironia.
	Voc s pode estar brincando!
Merlin retribuiu o sorriso.
	Eu sabia que no funcionaria, mas achei melhor tentar, de qualquer maneira.
Christina escondeu o rosto com as mos. Incrvel! Seu futuro dependia de um homem que acreditava em ps mgicos. O anel jamais sairia de seu dedo. Teria que casar-se com o prncipe Richard ou amputar o dedo. No sabia o que era pior.
Richard afagou-lhe o ombro, num gesto animador.
	No desista.
As palavras dele fizeram-na endireitar-se na cadeira. No era hora de reaes exageradas. Respirou fundo, procurando acalmar-se. Tinha certeza de que eles se livrariam daquela situao.
	Que faremos agora?
Merlin franziu a testa.
	O anel est colado  sua pele. Parece que uma substncia foi...
	Eu no colei o anel no meu dedo!  Christina reagiu ofendida.
	Ento, no h duvida  Merlin anunciou.  O anel serve, Alteza. Ela ser sua esposa.
	No acredito nisso.  O prncipe apertou os dentes.  Primeiro Gastou. Agora voc.
Merlin umedeceu os lbios.
	O que fazer, o que fazer?  Refletindo, o mago tamborilou os dedos na mesa.  Sua Alteza no quer casar-se com a srta. Armstrong?
O prncipe Richard olhou-a e o corao dela bateu mais forte.
	No permitirei que uma lenda decida com quem devo me casar.
	E voc no quer se casar com ele, srta. Armstrong?
A expresso furiosa do prncipe deixava-o ainda mais atraente.
	Eu... Bem, eu no quero me casar com um prncipe.
	Pense, pense, pense  Merlin murmurava a mantra com olhos fechados. De repente, abriu-os, levantou-se e empurrou o livro para eles.
	Leiam isto. Voltarei em seguida.
Merlin desapareceu atrs da cortina novamente. Christina assoprou o restante do p em seu dedo, cobrindo o rosto do prncipe com partculas cintilantes. Ele espirrou.
	Desculpe-me, Alteza.
Com a mo, ele limpou o rosto. Uma partcula continuou brilhando no nariz. Sem pedir licena, Christina removeu-a com a ponta do dedo sob o olhar espantado do prncipe.
Os lbios dele se curvaram levemente num sorriso devastador. Ela se arrepiou toda. Ficou tensa. No fazia o menor sentido. No podia sentir-se atrada por ele. No podia estar desejando que ele a beijasse de novo.
	O que faremos agora, Alteza?
Em vez de alimentar os sonhos dela, ele apontou para o ttulo do livro. A Lenda do Anel.
	Vamos ler.
No havia razo para sentir-se desapontada ou rejeitada. Lembre-se, ele no  o homem certo para voc. Um beijo era mais do que suficiente. Ela no queria mais complicaes. Ume-deceu os lbios secos.
O prncipe Richard abriu o livro. As pginas, amareladas e cheirando a mofo, eram verdadeiras obras de arte. Douradas, com desenhos feitos  mo e bordas coloridas.
	Este livro deve ter centenas de anos!  Christina olhava admirada. O texto, manuscrito com letra elaborada, era um trabalho artesanal.  O que est escrito?
	A Lenda do Anel atravs dos Tempos  Richard virou a pgina e leu-a em voz alta.
Depois de alguns trechos, interrompeu a.leitura. Ao longo dos anos, gerao aps gerao, a lenda provava ser verdadeira. Em cada caso, o anel servira no dedo da moa e o casamento real acontecia no prazo de uma semana, o que tornava a situao deles mais desanimadora.
Christina retomou a leitura.
Esta  a ltima histria e data do final do sculo dezessete.
	Quase no fim do relato, Christina fez um aparte.  Alteza, oua isto: "Trs dias antes do casamento, o anel saiu do dedo de Patrcia."
L estava! Exatamente o que eles procuravam. Os olhares se encontraram por um instante. Depois, Christina continuou:
	"O conselheiro real declarou a lenda invlida. Uma vez que o anel no estava mais no dedo de Patrcia, o casamento no devia ser..."
	Como o anel saiu do dedo da moa?  Richard inclinou-se e os ombros de ambos se tocaram. O perfume ctrico dele deixou-a nervosa.
	Deixe-me ver.  Procurando pelo tpico, ela ignorou a presso da coxa dele contra a dela. To quente. To rija.  Onde eu estava? "O anel..." No, no ... Ali, aqui. "O casamento no devia realizar-se. Mas o prncipe explicou ao conselheiro que retirara o anel do dedo de Patrcia para poder pedir-lhe formalmente em casamento. Ele a amava e queria se casar com ela. Lenda ou no."
	Droga!
Christina mordeu o lbio.
	Odeio dizer isto, mas parece que Didier tem razo. S o verdadeiro amor poder remover o anel.
Antes que o prncipe Richard respondesse, Merlin entrou abruptamente na sala.
	Se Sua Alteza se casar com a mulher a quem escolher, eu ganho a recompensa, mesmo sem ter conseguido remover o anel?
O prncipe hesitou por um momento.
	Sim... desde que no faa nada de ilegal.
	Maravilha, Alteza!  Merlin sorriu de orelha a orelha.
	Eu encontrei uma soluo. Duas, na verdade.
Merlin considerava aquilo uma soluo? Andando pela sala, Richard inclinava a cabea para no bater nas flores que pendiam do teto.
	No me importa o que voc diz, Merlin. No vou me apaixonar por ela!
Christina apertou os lbios.
	Nem eu por ele  garantiu ela.
Merlin cerrou o cenho.
Que pena eu no ter as histrias dos casos mais recentes, incluindo a histria dos seus pais, Alteza.
Richard parou de andar e cruzou as mos nas costas.
	Bobagem! So contos de fadas.
	Como pode dizer isso? Vocs leram o livro. Se vocs se apaixonarem, o anel sai do dedo dela. Esse  o caminho maisfcil. Posso preparar uma poo do amor. Nunca tive muito sucesso com a nmero 9, mas a nmero 23 junto com a nmero 30 so infalveis.
	No!  Christina e Richard gritaram em unssono.
	Crianas, crianas.  Merlin massageou as tmporas.
 Bem, ento, s nos resta a outra soluo.
	Em no chamaria isso de soluo.  Richard protestou.
 Uma hora ou outra, ns mesmos teramos essa ideia.
Merlin cruzou os braos e fez beicinho como uma criana.
	Mas eu pensei primeiro, Alteza.
	 verdade.  Isso significava que Richard iria revirar o mundo em busca de uma esposa e que manteria a palavra quanto  recompensa.  Mesmo assim, teremos complicaes.
	Complicaes menores, talvez. Porm, a escolha ser sua, Alteza. No  esse o seu desejo?
	Sim, mas...
	Tudo ser resolvido, Alteza.  Christina levantou-se.  Claro, ainda temos que descobrir uma maneira de tirarmos o anel do meu dedo, mas, pelo menos, voc manter o trono.
O tempo se esgotava e Richard preocupava-se com o anel ainda no dedo de Christina. A cada segundo que passava, ele ficava mais prximo do dia do casamento. Ele tambm se preocupava com a legalidade do plano. Logicamente, fazia sentido, mas as leis nem sempre so lgicas.
- Sim, mas...
	No vejo onde poderamos errar.  Christina enfaixou a mo e vestiu as luvas.  No se ns dois trabalharmos juntos.
	Concordo  disse Merlin.
	Voc encontrou a melhor soluo.  Ela beijou Merlin no rosto.  Obrigada.
	Voc seria uma princesa adorvel  respondeu ele.
Christina corou.
	Voc  muito gentil.
	E voc, muito querida.  Merlin suspirou.  Alteza, tem certeza de que no deseja se casar com a srta. Armstrong?
	Certeza absoluta. Pronta para ir embora?
	Estou.  Os olhos dela brilhavam.  Temos muito o que fazer, se quisermos encontrar uma esposa a tempo.
Apressados, Richard e Christina seguiram em direo  praa onde Didier os esperava.
	Sua Alteza pretende casar-se na igreja ou s no civil?  Christina perguntou.
	O qu?
	Precisamos planejar o casamento. Assim que encontrar mos a noiva, no poderemos perder um minuto.
	H anos, estou procurando a mulher ideal. Voc acredita mesmo que, de repente, vou encontr-la num final de semana?
Ela ergueu os ombros e abriu os braos.
	Voc tem escolha?
Richard hesitou. Christina usava o anel. Portanto, ela era a suposta noiva. De short, as pernas dela pareciam mais compridas. Mechas de cabelos ruivos escapavam por baixo do chapu. A brisa do mar s acentuava sua fragrncia floral. E os lbios...
Ela era a escolhida pela lenda, porm, a ltima coisa que desejava, era casar-se com um prncipe. Ela queria um cowboy, como o que desenhara. Alm do mais, no poderia despos-la, mesmo que quisesse.
	No, eu...
Uma brecada. Batidas de porta. Um flash. Gritos.
	L esto eles!  exclamou uma voz masculina.  Alteza?
	Esta foto vai garantir at a faculdade do meu filho!  exclamou o outro reprter.
Segurando a mo de Christina, o prncipe correu pela rua de pedra. Entraram por uma alameda e esconderam-se no jardim de uma casa.
Ouviram o som de passos. Ele levou o dedo aos lbios, pedindo silncio. Christina meneou a cabea, concordando.
	Acho que eles vieram para c  disse um dos reprteres.
	Ser que saram para um encontro amoroso?  ironizou o outro.  Pena que no os surpreendemos em Astarte. Eu queria tanto ver as jias de Christina!
Ambos riram.
Eu tambm. Mas temos de nos contentar com o que conseguirmos.
.Richard enfureceu-se. No era s o desrespeito deles. Era toda a imprensa glorificando a lenda, fazendo com que todos os cidados de San Montico acreditassem piamente naquela bobagem. O povo estava encantado, obcecado era o termo exato, pela magia. Ele se cansara.
Contou at trs e saiu do esconderijo. Num instante, reprteres e cmeras estavam no cho e os filmes destrudos. Fcil demais.
S que Richard no olhou para trs. Um telefone e a notcia estava dada. O prncipe e sua noiva passeando pelas ruas de San Montico. Precisava tirar Christina dali antes que algum mais os visse.
Correram at encontrar uma porta aberta. Entraram num ptio e fecharam o porto.
O rosto de Christina estava vermelho e ela ofegava.
	Tudo bem?  Richard perguntou.
	Tudo. Eu pensei que estivesse em melhor forma fsica.
Essas ladeiras so de arrebentar as pernas!
E que pernas! Hora de agir corrio prncipe, no como homem. Ele virou o rosto.
	Acha que os despistamos?  Christina indagou.
Ele prestou ateno nos rudos da rua e nada.
	Por enquanto.
	Otimo. A propsito, sua performance foi impressionante.
Os prncipes tambm aprendem essas coisas?
	Claro. Temos aulas especiais de como lidar com a imprensa como verdadeiros cavalheiros.
	Adoraria ver como voc os trata quando no se comporta como um cavalheiro  disse sorrindo.
Se ela ficasse na ilha por muito tempo, certamente, teria a oportunidade de ver.
	Vamos andando. Temos que encontrar Didi.
	E os fotgrafos?
	Seremos cautelosos.
Na praa, o prncipe Richard olhou ao redor, depois consultou o relgio de pulso.
Didi est atrasado.
Christina sentou-se no banco de concreto, tirou o bon e penteou os cabelos com os dedos. Precisava de um banho e do caf da manh.
	Talvez, ele tenha perdido a hora.
	Ele  sempre muito pontual  Richard afirmou.
	Logo ele estar aqui, Alteza.
Felizmente, ela podia relaxar um pouco depois da corrida at a praa. Fora difcil acompanhar o ritmo dos passos do prncipe, mas, em compensao, pudera admirar o belo fsico dele. O short branco contrastava com a pele bronzeada e as gotas de suor que cobriam-lhe os braos e as pernas, brilhavam ao sol.
Christina respirou fundo. O que estava fazendo?
No devia estar suspirando por ele como uma adolescente. Devia, sim, ajud-lo a encontrar uma esposa. No se permitia o luxo de sentir-se atrada por ele.
	Por que no senta, Alteza?
Voltando-se, ele tocou-lhe a ponta do nariz com dedo.
	Seu nariz est ficando vermelho. Coloque o bon.
Sentiu uma ardncia na pele. No pelo sol, mas pelo toque.
	Estou precisando mesmo de um pouco de cor.
Ela o fitou. O rosto dele estava bronzeado por igual. O olhar deteve-se nos lbios dele. Pareciam esculpidos. Cheios, dignos de serem beijados. O beijo da noite anterior apenas estimulara o apetite dela. Ela queria provar mais.
No, Christina ralhou consigo mesma. No queria beij-lo. Nunca mais.
	Quais so os requisitos, Alteza?
	Requisitos?
	Para a candidata.
	Eu tenho uma lista.
Uma lista?
Exatamente como Christina pensava. Em compensao, ela tivera to poucos namorados. A pintura ocupava-a demais. E quase todos os candidatos a marido em potencial que algum sempre lhe apresentava, eram clones mais jovens do pai dela. O ltimo tipo de homem com quem ela se casaria. Depois de um prncipe, claro. Quando ela se mudasse para o oeste...
Ela descalou as sandlias.
	Que tal um banho gelado?
	Eu...
Sem esperar pela negativa dele, Christina correu para a fonte e pulou para dentro da gua.
	Que delcia! No quer aproveitar?
O prncipe olhou ao redor.
	Por que no?
	 o que sempre digo.
Ele tirou os tnis e as meias e entrou na gua.
	 muito refrescante mesmo!
O sorriso dele lembrava o de uma criana. Ela podia imaginar o prncipe em criana de cabelos ondulados, brilhantes olhos azuis e sorriso encantador.
	Nunca me imaginei assim, Christina.
Ela jogou gua nele.
	E assim?
	Talvez.  Rindo, ele jogou-lhe gua tambm.
Ela tentou fugir, mas bateu as costas num golfinho. Presa. Ele se aproximou. Mais e mais, at parar diante dela. Apenas alguns centmetros de distncia.
Christina estremeceu. O hlito quente acariciava-lhe o pescoo, provocando-lhe ondas de desejo pelo corpo inteiro. A gua batia-lhe nas pernas, mas no conseguia esfriar o calor que crescia dentro dela.
Viu o brilho do desafio nos olhos dele. Mas ela no podia provar daquela gua. Uma onda imensa esperava para arrast-la mar adentro. Seu lado racional dizia-lhe para no se deixar levar. Mas o outro lado queria...
Christina no conseguia fit-lo nos olhos sem sucumbir a tanto charme. Ela andou para o lado e perdeu o equilbrio. O prncipe amparou-a. Segurou-a por um momento e ela gostou da sensao de segurana dos braos dele. O calor das mos queimavam-lhe a pele sob a camiseta. O perfume de Richard intoxicava-a.
Ele no era um simples mortal. No podia ser.
	Voc est bem?  Os olhos dele brilhavam de preocupao e algo mais que Christina no tinha certeza de querer ver.
Sem confiar na voz, ela balanou a cabea num gesto afirmativo.
	Cuidado, no quero que se machuque  murmurou ele.
Ento fique longe de mim. Fique longe, bem longe.
No instante seguinte, os lbios dele estavam sobre os dela. Gentis, ternos. Doces.
E ento... A gentileza e a ternura desapareceram. No lugar deles, fora, fome, desejo. Paixo pura, intensa e incontrolvel.
O cu devia ter o gosto do prncipe Richard porque um beijo to avassalador, to sufocante, to perfeito, s podia ser uma ddiva.
Diga-me que sente o mesmo. Christina encostou a mo no peito msculo e sentiu-lhe as batidas fortes e descompassadas do corao.
Ele espalmou as mos nas costas dela, puxando-a para si. Christina encostou o corpo no dele, correspondendo com o mesmo fervor e ansiedade. Nada importava, s aquele momento, s ele. O sangue fervia nas veias. As sensaes pulsavam dentro dela. Uma dor pungente provocou um dbil gemido. Ela o desejava. Precisava dele.
	Rich...
Abruptamente, Richard se afastou. Christina sentiu que uma parte de si ia com ele.
	Foi...  O prncipe tomou o rosto dela entre as mos.
 Um erro.
Quando entendeu o que ele dissera, a decepo e dor atingiram-lhe o corao. Claro, fora um erro. E da que o beijo fora to devastador? Richard era to bonito, sensual, encantador. To prncipe. Ela estremeceu.
	Christina...
	Foi um erro, Alteza.  Ela ergueu o queixo e sustentou o olhar dele.  Um erro que no se repetir.

CAPITULO VIII

Tudo o que Christina queria, era encontrar uma noiva para o prncipe Richard. Nos lbios, ainda sentia o calor e a presso do beijo dele. Isso a deixava furiosa. Com ele, com ela.
Sobre a escrivaninha do quarto, alguns livros com o registro da aristocracia europeia. Ao lado, um bloco com o nome das mulheres que ela conseguira lembrar-se. Amigas, amigas das amigas, estrelas de cinema. Logo de cara, uns cinquenta nomes. S de plebeias, a maioria de americanas. Talvez, Richard preferisse uma moa de sangue azul, depois do que acontecera com Thea.
Respirando fundo, comeou a folhear os livros  procura de uma provvel candidata. De repente, a imagem de Richard surgiu-lhe na mente.
Na fonte, ela se sentira sensual e vibrantemente viva, como nunca acontecera antes. Ele tambm no ficara indiferente ao beijo. Sentira-lhe o corao bater to forte e rpido quanto o dela.
Que importncia tinha o que ele sentira? Afinal, fora apenas um beijo. Um beijo que no mudava nada. Richard tinha planos. Ela tambm. Talvez no exatamente planos. Apenas esperana de mudar-se para o oeste, onde teria mais facilidade para encontrar o homem dos seus sonhos. Casamento com um prncipe no fazia parte do quadro, e tornar-se princesa estava fora de questo.
Voltou a ateno para os livros. Decidiu seleeionar pela data de nascimento. Logo, na lista identificada como "Realeza", tinha cinco nomes. Estava sendo mais fcil do que imaginava.
O telefone tocou. Ela atendeu.
	Al?
	Al, querida!
Imediatamente, reconheceu a voz da me.
	Me!
	Ainda bem que a encontrei antes de sair. Seus ps j tocaram o cho? Os meus ainda no! Estou exausta. Tenho que cuidar de alguns detalhes de ltima hora antes de ir para Nova York.  Finalmente, Claire parou para respirar.  Tive uma manh atarefadssima.
	Voc est bem, mame?
	Estou perfeitamente esplndida  Claire respondeu com voz alegre.  Assim que chegar em Nova York, vou direto  Bergdorfs. Temos que fazer bonito diante da famlia real.
Christina suspirou. A me fazia das compras um estilo de vida.
	No h necessidade de tanto trabalho.
	No  trabalho. Tenho minha participao nisso tudo. Se no fosse por mim, voc no teria ido ao baile de aniversrio do prncipe. Eu no disse que seria muito bom voc ir a San Montico?
	Disse.
	Oh, querida, voc deve estar to radiante!
	Radiante no  nem o comeo de como estou me sentindo, mame.
	Imagino, meu bem. Como esto os preparativos para o casamento?
	O papai e a princesa Marguerite esto cuidando de tudo..
	Os bailes filantrpicos da princesa so trs magnifique.
Ela tem um gosto requintadssimo.
Tudo que dizia respeito  princesa era requintado. A esposa de Richard deveria ter as mesmas qualidades, ou ela se sentiria ofuscada pelo brilho da princesa Marguerite.
	Tem, sim.
	Kelsey chegar logo. Voc sabe, ningum organiza um casamento melhor do que ela. Sua prima  extraordinria.
Kelsey. Christina anotou o nome dela na lista das plebeias. Kelsey sofrera muito com o divrcio dos pais e jurara jamais casar-se, mesmo adorando coordenar o casamentos dos outros.
	E voc, minha pequena, ser uma princesa extraordinria.
O orgulho que pulsava em cada palavra de Claire, provocou tremores em Christina. Claire teria um ataque de nervos quando Richard se casasse com outra mulher.
	Ainda no sou princesa.
	 s uma questo de tempo, querida. Voc ser parte da realeza.  Claire suspirou.  Estou to emocionada.
Christina coou o queixo. Uma vez mais, desapontaria seus pais. Uma vez mais, seria um escndalo pblico. Finalmente, ela conseguira atrair a ateno dos pais, mas, no poderia casar-se apenas para satisfaz-los. Por mais que quisesse o amor dos pais.
Um elegante longo azul, desenhado por Delia, chegou  sute, junto com um convite para a festa de comemorao do prximo casamento real. Christina no queria vesti-lo, mas temendo ofender a princesa Marguerite, acabou concordando.
Mais tarde, como Christina tinha imaginado, o palcio ganhou vida sob o prodgio da lenda. O requinte da decorao, o quarteto de cordas, a excelncia da comida, criavam o clima de contos de fadas. Mais uma vez, Christina sentia-se a Cinderela do baile.
Circulando entre os convidados, ela recebia os cumprimentos e os votos de felicidades. Sorridente, a princesa Marguerite no escondia sua alegria.
O marqus flertava com mulheres bem mais jovens, divertindo-se a valer. Alan Armstrong estava em seu elemento, discutindo negcios e finanas com a elite europeia. Era s felicidade.
Rchard tambm conversava com os convidados. Mas, pelo sorriso tenso e olhar distante, Christina juraria que ele estava apenas tolerando aquela festa.
Como ela deveria estar.
Mas...
Ouvindo as palavras sinceras dos convidados, vendo a alegria espontnea no rosto deles, percebendo que era aceita no restrito crculo da realeza, Christina sentia-se verdadeiramente como noiva do prncipe.
E ela gostava dessa sensao.
Mas no deveria entusiasmar-se. Guardara a lista de candidatas, agora em nmero reduzido, dentro do sapato, e cada vez que dava um passo, o papel pressionava o p esquerdo, fazendo-a lembrar-se do acordo. Alm disso, no podia esquecer que aquilo tudo era uma encenao. Que a noiva seria outra mulher.
Com passos lentos, ela escapou da festa, procurando refgio no terrao. A noite no tinha nada a ver com ela, mas tinha tudo a ver com o anel.
O anel.
O anel no apertava, nem pressionava. Era como se estivesse no dedo. Porm, sob a luva branca, o anel estava l, firme. 
Por alguns momentos, nem se lembrara dele. A mgoa misturava-se com alvio. Uma parte dela queria que o anel casse do dedo, desaparecesse e nunca mais fosse encontrado. Mas a outra parte queria...
O que faria?
Encostou-se no pilar de pedra e suspirou. O ar gelado da noite espalhava o perfume de gardnias, rosas e sal. A lua iluminava o cu estrelado. As cigarras, as folhas ao vento e as ondas, criavam uma sinfonia prpria, intensificando o encanto da ilha.
	Sabia que a encontraria aqui, querida.
Voltando-se, Christina viu o pai aproximando-se. O sorridente pai da noiva trazia duas taas de champanhe. Ela nunca o vira to feliz. Sentiu uma pontada no corao ao pensar no quanto ele ficaria desapontado com o casamento de Richard com outra mulher.
	Precisava de ar fresco.
	Foi uma longa noite. Alguns convidados j esto se despedindo.  Ele lhe entregou uma das taas.  Que festa, hein?!
	Bem interessante.  Tantos duques, duquesas, condes, condessas. Depois de ler tantos nomes nos livros de registro da nobreza, ela no esperava conhecer muitos deles com tanta rapidez.  Eu queria...
	Diga-me o que voc quer, e eu o farei para voc.
Agora que ela ia se casar com um prncipe, tudo mudara.
O que quer que ela quisesse. Nada de sermes. Nada de olhares reprovadores. Nada de querer o que ela no teria. Era uma pena que isso no duraria muito.
	Eu apenas queria que tudo estivesse terminado.
Alan sorriu.
	Logo estar terminado.
No to depressa assim. Christina bebeu um gole de champanhe.
	Meus advogados esto cuidando de tudo.
O pai dela nunca entendera que o homem com que ela queria se casar poderia no interessar-se pelo dinheiro da famlia. Nesse caso, porm...
	No  necessrio um contrato pr-nupcial.
	O prncipe Richard parece ser um homem honrado, mas  para sua proteo, minha filha.
	Nunca quis seu...
	Deixe que eu cuido dos negcios. Tenho experincia suficiente para saber quais precaues tomar.  Alan acariciou-lhe os cabelos, como costumava fazer quando Christina era criana. Ela se conteve para no atirar-se nos braos do pai e pedir-lhe para fazer tudo direito. Os olhos dele brilharam.  Imagine, parece que foi ontem que trouxemos voc do hospital, e logo, logo, voc estar casada. Onde foram parar esses anos todos?
Nas reunies de negcios, viagens de negcios, frias, trabalho...
Ela terminou o champanhe.
	O tempo passa rpido para quem est feliz.
	Algo errado, Christina?
	As coisas esto acontecendo rpido demais, papai. Mal conhecemos os de Thierry e, de repente, estamos todos alvoroados, a mame comprando meu enxoval, Delia costurando meu vestido de noiva...  As palavras precisavam ser ditas.
Christina no podia segur-las mais.  Voc no acha que devamos dar um tempo? Fazer as coisas com calma? Adiar a cerimnia por uns dias, semanas?
	Se voc no se casar com o prncipe Richard, ele perder o trono. Voc no quer que isso acontea, no ?
Ela olhou para os jardins l embaixo.
	No.
	No parece.  Com a ponta do dedo, ele ergueu o queixo da filha.  Sei que voc sempre viveu um tanto reclusa, que no tem... muita experincia com os homens, mas...
	No estou preocupada com isso.
Com expresso de alvio, Alan respirou fundo.
	timo, porque esse assunto j  departamento de sua me.
Christina meneou a cabea.
	Sua me ficou muito nervosa depois do nosso casamento.
Ela achava que ia dar tudo errado, mas deu tudo certo!
	Ela sempre diz que foram os dias mais felizes da vida dela.
	E os seus tambm sero muito felizes, meu bem.  Ele a enlaou pelos ombros.  Estou cuidando de tudo. Seu casa mento ser perfeito.
	No  o casamento. ...
O som de passos interrompeu-a. Era Richard caminhando na direo deles.
	Algum problema?  perguntou o prncipe.
Alan riu.
	Apenas nervosismo pr-nupcial.
Richard fitou-a.
	Voc est bem, Christina?
	Muito bem, Alteza.  No tom de voz, uma leve hesitao.
	 a minha menina.  Alan ergueu a taa para ela.  Sua me e eu estamos muito orgulhosos de voc. Sempre sou bemos que, um dia, voc faria algo brilhante, e que no passaria sua vida pintando aqueles quadrinhos.
Christina tentou ignorar as palavras do pai e o desprezo dele e da me pelo seu modo de vida. Ningum da famlia a entendia. Ela no combinava com a imagem de um Armstrong bem-sucedido.
Na histria da famlia havia mdicos, advogados, polticos, cientistas e executivos, todos famosos e bem conceituados. Artistas no se encaixavam no currculo familiar. Christina era uma das duas Armstrong que no tinham curso superior. Porm, at mesmo a prima Kelsey encontrara o sucesso como consultora de casamento de pessoas famosas.
	Acho timo Christina pintar animais  afirmou Richard.
 Quem no gostaria de ter o retrato de seu bicho de estimao? Eu mesmo vou encomendar um quadro do meu cavalo, Beaut du Diable. Isto , se voc me der essa honra.
Honra? Ora, ele estava apenas sendo educado. Mesmo assim...
O corao de Christina disparou. O peito se apertou. No podia respirar. Sentia calor. Piscou para espantar as lgrimas que teimavam em escorrer pelo canto dos olhos. Naquele momento, quis enlaar Richard, abra-lo, beij-lo, casar-se com ele.
	Gostaria muito de pintar Beaut du Diable.
Beleza do Diabo. Nome interessante para um cavalo.
Alan sorriu.
	Christina pinta muito bem, Alteza.
Por mais que os clientes valorizassem seu trabalho, o que ela sempre esperara era o reconhecimento, uma palavra de incentivo dos pais. Agora, porm, as coisas estavam mudando.
	O retrato ser um belo presente de casamento  Alan acrescentou.
Isso tambm j era demais. Seu pai estava apenas tentando agradar o prncipe. Christina olhou para a lua.
	Temos que agradecer  minha me pela festa.  Richard pegou no brao dela.  Com licena, sr. Armstrong.
	Pois no, Alteza.  Alan afastou-se para Christina passar.
Richard levou-a para dentro do salo. A festa ainda estava
animada. Todos os olhares pareciam voltados para eles, observando-lhes todos os passos. Christina detestava essa vigilncia. Detestava ser o centro das atenes.
	As pessoas esto olhando  murmurou ela.
	Ignore-as  o prncipe ordenou como se fosse fcil fingir que ningum os observava.  Depois que falarmos com minha me, poderemos nos retirar.
	No podemos sair agora.  Christina sentiu-se constrangida por lembr-lo da etiqueta.  A festa  em nossa honra.
	Eu fao o que quiser.  Richard franziu a testa.  Sou o prncipe.
	Sabe o que as pessoas pensaro se nos virem saindo juntos?
	No estou nem um pouco preocupado.  Ele lhe estendeu a mo.
	Alteza...  Ela tentou no sorrir quando pegou na mo dele.
	As pessoas pensaro exatamente o que queremos que pensem.
Os olhares se encontraram e Christina sentiu-se como se eles fossem as duas nicas pessoas naquele palcio. O corao dela descontrolou-se.
Parecia enfeitiada. O corpo inteiro formigava, como se algum tivesse jogado p mgico sobre ela.
	E como queremos que pensem?
	Que estamos apaixonados e ansiosos para nos casarmos. 
Engraado. Mas quando ele a olhava daquele jeito, ela quase acreditava. 
Richard no acreditava. Cada vez que olhava para a me, surpreendia-se mais. Sim, ele queria que a princesa quebrasse o luto, mas no por causa da Lenda do Anel.
Quem precisava de um anel encantado para encontrar uma noiva, se tivesse uma me igual a dele? A princesa Marguerite desempenhava maravilhosamente bem o papel de santa casamenteira.
Ela se mostrara mais do que compreensiva quando os noivos falaram em sair antes do trmino da festa. At mesmo sugerira um passeio pelos jardins e praticamente os empurrara porta a fora para verem a lua. Qualquer coisa para unir Richard e Christina. Qualquer coisa por netos.
E, para desespero de Richard, a estratgia estava funcionando.
Ele no podia permitir que isso acontecesse. J pensava demais em Christina. No acreditava em magia, mas era impossvel ignorar as evidncias. Tinha que evitar qualquer coisa que pudessem considerar como romntico. Em vez de um passeio, ele levou Christina at o escritrio, o lugar mais seguro e menos romntico do palcio. Era o que sempre pensara. Agora no tinha tanta certeza. Ela suspirou.
	No sei como voc consegue trabalhar tendo diante de si uma vista como esta.
Richard olhou para as luzes da cidade brilhando ao longe, decorando as montanhas como pequenas estrelas. Depois, voltou-se para Christina. Os cabelos presos no alto da cabea realavam a curva graciosa do pescoo. O decote do vestido azul claro revelava a pele macia e tentadora. Uma viso deslumbrante.
	Eu me esforo  ele brincou.
	Tenho certeza que sim.  Ela o fitou.  Como foi seu trabalho esta tarde?
Alm da rotina diria, o prncipe verificara e aprovara o balancete, o oramento para a nova temporada do Conselho Real de Artes. Um tpico dia de trabalho.
	Normal, com os afazeres de sempre.
	Eu tambm trabalhei um pouco.  Ela descalou o sapato esquerdo, de onde retirou um pedao de papel dobrado.
Richard no conteve o riso.
	O que  isso?	
Christina desdobrou o papel.
Antes, quero agradecer-lhe pelo que disse ao meu pai sobre minhas pinturas.  Ela alisou as dobras do papel.  Foi... amvel e significou muito para mim.	
O prncipe sorriu.
	Quero, realmente, que pinte Beaut du Diable.
	De verdade? Voc nunca viu meu trabalho!
	Vi o esboo do cowboy no cavalo.
	O cowboy?
	No seu quarto, esta manh.
	Oh,  mesmo!  Ela tornou a alisar as dobras do papel.
 Um esboo  diferente do trabalho pronto.
	Pelo modo como seus olhos brilham e seu rosto se ilumina quando voc fala do seu trabalho, aposto como voc  boa pintora. Voc ama seu trabalho, e quem ama o que faz s pode ser bom.
O sorriso tmido dela impressionou-o.
	Ningum, nem mesmo sua famlia, pode subestimar o seu talento.
	Minha famlia tem grandes expectativas.  Christina colocou o papel sobre a escrivaninha e correu o dedo no espaldar da poltrona de couro.  Sabe o que eu costumava... Oh, esquea!
Ele se inclinou, curioso com o tom melanclico.
	Fale.
	 tolice.
Richard sentou-se na beira da escrivaninha.
	Todos ns temos coisas tolas em nossas vidas. Voc vai contar a sua?
Christina ergueu uma sobrancelha.
	At mesmo voc?
	Uma ou duas.
Ela riu.
	Tantas assim?
Richard encolheu os ombros.
	Se eu contar alguma tolice, voc me contar a sua?
	Ok.
Ele no costumava abrir-se em confidncias, mas alguma coisa em Christina...
	Quanto eu tinha sete anos, meu pai comprou-me uma luva de beisebol e levou-me para ver um jogo dos Yankees. Ainda me lembro do cheiro da grama recm-cortada e do gosto do cafchorro-quente. Eu nunca tinha comido um cachorro-quente antes. Foi o dia mais perfeito da minha vida.
	Foi mgico.
	Foi  A bola ainda estava guardada em algum lugar. A luva tambm. Estranho ele nunca mais ter se lembrado da visita ao Yankee Stadium. At aquele momento. At Christina entrar em sua vida.  Eu sonhava ser um grande jogador de beisebol, vencer o Gold Glove e ser convocado para disputar o campeonato mundial.
As lembranas fizeram-no sorrir.
	Viu?  tolice.
Christina sorriu tambm.
	No acho que seja tolice.
	Claro que , considerando que a minha vida j estava determinada, mesmo antes de eu nascer. Sua vez.
Com a ponta da lngua, ela umedeceu o lbio inferior.
	Em criana, eu pensava que tinha sido trocada na maternidade. E que se encontrssemos a verdadeira Armstrong, a troca seria desfeita e tudo ficaria bem. Ela poderia nadar em caviar, e eu me fartaria com hambrgueres.
	Hambrgueres?
	Isso mesmo! Minha me teria um ataque se soubesse que gosto mais de hambrguer do que de caviar.  Ela riu.
 Eu disse que era bobagem, mas eu ficava imaginando como seriam os pais dessa menina, meus verdadeiros pais.
	Como eles eram na sua imaginao?
	Bem, o pai trabalhava num posto de gasolina. Ele saa cedo trabalho e tinha tempo para ajud-la nas lies de casa e de v-la atuar nas festas da escola. Ele sempre tinha uma palavra de incentivo e um abrao carinhoso. A me estava sempre em casa e adorava cozinhar, principalmente bolos e bolachas. Ela tambm costurava e no se importava com as cores e os modelos da moda.
	Alguma vez voc comentou isso com seus pais?
	Voc est brincando!  Christina ficou sria.  Sei que tenho muito mais do que a maioria das pessoas, mas  errado querer...
	O qu?
	Menos, no... mais. No estou falando de roupas, de jias, de carros, de casas maravilhosas. Mais famlia, mais tempo, mais... amor.
At aquele momento, Richard nunca parara para pensar na sorte que tivera. Ele sempre vivera cercado por pessoas que o aceitavam, que o apoiavam, que o amavam. Sua famlia sempre estivera ao lado dele, incondicionalmente, em qualquer situao. Enquanto Christina...
Uma onda de ternura invadiu-o. Segurando o rosto dela entre as mos, ele a forou a olh-lo. Sardas douradas salpicavam-lhe o nariz, uma cor rosada coloria-lhe as faces.
	No  errado querer mais. Todo mundo quer mais.
	Voc tambm?  Ela piscou, os clios batendo como asas de borboleta. Os lbios ligeiramente abertos. Rosados, cheios e macios. Lbios feitos para sorrisos radiantes. Lbios feitos para beijos demorados, midos.
Sim, ele queria mais. Richard a queria.
CAPTULO IX

A cada minuto que passava, a situao tornava-se mais e mais complicada.
Richard voltara ao escritrio, sem saber o que fazer. Na noite anterior, ele analisara a lista de candidatas, enquanto Christina continuara pesquisando os livros. Tudo isso para qu?
Certamente, no para serem surpreendidos beijando-se na fonte.
A foto estampada na primeira pgina do jornal, enfureceu Richard. Antes, ele no teria se importado, mas depois de conhecer Christina... Ele ainda sentia o gosto do beijo dela. A maciez daqueles lbios, o gosto adocicado de sua boca.
O mais revoltante era que a foto no mostrava apenas o beijo. Revelava seu desejo por Christina. Algo que ele fingira no sentir, no dia anterior. Algo que ele tentara ignorar, na noite anterior. Algo claro para o mundo ver naquele dia.
O mundo poderia ter acabado e ele no teria percebido, de to envolvido, seduzido por Christina. Nem mesmo com Thea, ele se sentira assim.
Mais um ponto em favor da famigerada lenda.
Outro olhar para a foto e Richard tremeu de raiva. Ningum tinha o direito de invadir sua privacidade. Atirou o jornal sobre a escrivaninha.
	Como se atrevem?
Sentado do outro lado, Didier serviu-se de ch.
	No  a primeira vez que voc  fotografado beijando
uma mulher.
No era a mesma coisa. Richard esfregou os olhos.  Quem bateu a foto?
	No sei.  Didier adicionou acar ao ch.  A foto foi publicada no Times e no Journal. E se voc marcar uma coletiva para depois da visita ao Hospital Infantil?
Richard lembrava-se do que acontecera depois de seu rompimento com Thea. A situao tornara-se insustentvel e a imprensa transformara sua procura por uma noiva em verdadeira piada. S esperava que no magoassem Christina depois do "rompimento" deles. Ele no queria que ela sofresse, como ele sofrera.
	Nada de entrevistas.
	Uma declarao dever acalmar a tenso com mdia.
	Farei uma declarao quando achar que estou pronto para dizer alguma coisa.
Didier bebeu o ch. Depois de colocar a xcara na bandeja, sentou-se na beirada da escrivaninha.
	Sem entrevista ou declarao, os reprteres criaro suas prprias verses, ou chegaro aos extremos para descobrirem a verdade, Alteza.
Richard apontou o jornal.
	Esta no  a verdade.
	Voc a estava beijando!  Didier afirmou.  No parece tenha sido obrigado, Alteza.
O prncipe no apreciou o sorriso de Didier.
	Foi um erro.
E o beijo da noite anterior? Seria -publicado na edio da noite?
O beijo de Christina fizera com que ele se sentisse no paraso. O que havia de errado com ele? Alguns beijos, ainda que maravilhosos, no significavam nada.
Didier inclinou-se sobre a fotografia.
	Esse  o tipo de erro que eu gostaria de cometer.
	Voc no entende, Didi. Quando Christina vir esta foto...
Ela detesta a imprensa justamente por isso.
	Ento voc no est furioso com a foto, mas porque poder magoar Christina?
	Estou furioso pelos dois motivos.
Didier sorriu.
	Por que o sorriso?  Richard indagou.
	Voc est comeando a preocupar-se com ela, Alteza.
	No estou.  Ele no se preocupava com Christina. No do modo com Didier insinuava. No daquele modo.
Ele a respeitava. Gostava dela. Sua inteligncia, seu senso de humor, seu calor. Eles formavam uma bela dupla. Dupla... no um casal.
	Ela ... agradvel.  Richard ignorou o ar interrogativo de Didier.  E tambm no acredita na lenda.
	Christina ser uma esposa maravilhosa e magnfica princesa.
	Sim. No.  Richard no permitiria que o tom esperanoso da voz de Didier o contagiasse. No seria apanhado pela febre do casamento.  Ela ser uma boa esposa... para outro homem. No para mim.
Christina poderia invadir seus pensamentos e sonhos. Os sentimentos dele, porm, no tinham nada a ver com amor e casamento, mas tudo, com luxria e atrao.
Qualquer homem se sentiria atrado por Christina Armstrong.
Mas ele no se apaixonaria, nem se casaria com ela. Christina no era mulher para ele. Era a mulher escolhida pela lenda. Ele no queria nada com ela, mas o trono estava em jogo. Assim que o anel sasse do dedo dela...
	Est pensando em abdicar, Alteza?
Richard olhou pela janela. O sol estava nascendo na ilha. Raios dourados enfeitavam o cu, iluminando a vegetao coberta de orvalho.
Todas as manhs, a cena era a mesma. Depois de uma noite de sono, a cidade despertava, voltando lentamente  vida. Fios de fumaa saam pelas chamins do sculo dezessete. Carroas entregavam leite, po e ovos nas casas. Da marina, barcos de pesca saam para alto-mar.
Richard amava San Montico de todo corao, mas no queria tornar-se parte do legado de uma superstio arcaica. No permitiria que San Montico vivesse do passado. No permitira que seu corao se partisse novamente.
	Continuarei no trono.
	Ento vai se casar, Alteza?
Richard hesitou.
	Sim.
Mas no com Christina.
Os nomes ainda desfilavam diante dos olhos cansados de Christina. Em algum lugar, escondido entre as centenas de pginas, estava o nome da futura esposa de Richard.
Era primordial encontr-la. No permitiria que os beijos estonteantes do prncipe a afastassem da responsabilidade. Se pelo menos seus pensamentos no se desviassem tanto...
Olhou para o bloco de desenho. Naquela manh, assim que acordara, desenhara um pouco. Mas o cavaleiro no era o cowboy que imaginara desde o incio. Dormira pouco, estava cansada, essa era a nica explicao. Fechando o bloco, voltou para os livros de registro.
Uma leve batida soou na porta.
	Entre.
Richard entrou no quarto com um jornal nas mos.
	Bom dia.
Christina ajeitou os cabelos com os dedos.
	Oi.
	Encontrou... alguma coisa?
Na folha de papel, apenas quatro nomes. Ela estava comeando a ser to exigente quanto Richard no processo de qualificao da princesa ideal.
	Poucas possibilidades.
	Ainda bem. J recebeu sua agenda de hoje?
	J. Visita ao Hospital Infantil s dez, almoo ao meio-dia, e uma tarde cheia. Aposto que a sua  pior.
	 mesmo.  Richard desdobrou o jornal e estendeu-o para ela.  Veja isto.
Christina olhou para a foto publicada na primeira pgina do Sara Montico Times. No. Aquilo no podia estar acontecendo! O estmago se contraiu, a respirao parou na garganta.
Na foto, ela parecia to libertina, to voraz. Estava ali, em branco e preto, para o mundo ver. As emoes e a atrao por Richard estavam claras como a gua mais cristalina.
	Pensei que estivssemos sozinhos.
	Eu tambm.
Ela desviou o olhar para o livro de registro.
	Sinto muito.
Com a ponta dos dedos, ele ergueu-lhe o queixo e fitou-a nos olhos.
	Voc no fez nada de errado, Christina. Nada.
	Mas... todos que virem... pensaro...
	Sim, pensaro, e por isso eu sinto muito. Eu deveria ter imaginado.  Richard acariciou-lhe o rosto com a ponta do dedo.  O que aconteceu na fonte, era particular, e no para ser publicado na primeira pgina dos jornais.
A ternura daquele gesto despertou a vontade de abra-lo e no solt-lo mais. Mas Christina no devia pensar assim. No devia querer ser abraada por ele. No devia ansiar pela proximidade do corpo dele. No devia sentir nada pelo prncipe.
	Gostaria de no ter...
	No permita que isso a aborrea.  Richard amassou o jornal e atirou-o no cesto de lixo.  Esse tipo de sensacionalismo era esperado, e agora no adianta fazermos mais nada.
Ele estava certo.
	Mas  terrvel. Como voc suporta?
Richard encolheu os ombros.
	Aprendi a tolerar.
	Acho que nunca aprenderei.  Ela mal podia esperar para mudar-se para o meio do nada, onde ningum a conhecia, onde ningum se importava se ela era uma Armstrong ou no.
  como viver num aqurio e ver o mundo todo observando seus movimentos.
	Voc no ter que aguentar isso por muito tempo.
Com a mo direita, Christina tocou no anel, sentindo um misto de tristeza e alvio.
	Eu sei.
Entre outras coisas, a visita ao Hospital Infantil ajudou Christina a ver as coisas sob outra perspectiva. De repente, a foto estampada na primeira pgina dos jornais, no parecia mais to importante. No, com tantas crianas nos leitos de hospitais.
O brilho nos olhos e o sorriso de alegria das crianas por verem o prncipe, era emocionante e gratificante. Christina realizou-se, distribuindo presentes, sorrisos e carinhos.
Depois de uma rpida reunio com os mdicos, Richard percorreu os corredores  procura de Christina. Ao passar diante de um quarto, pela porta entreaberta, ele a viu ao lado da cama de uma menina. No sabia o que elas estavam fazendo, mas ouviu as risadas. Soando to bonito quanto os sinos de uma catedral, o riso de Christina e da menina tocou-o profundamente.
Enlevado, Richard observava-a. Ela fazia com que cada criana se sentisse querida e importante. Com certeza, seria uma excelente me.
Imaginou-a usando a tiara dos de Thierry e danando com ele. Visualizou-a acenando para o povo, enquanto a carruagem real percorria as ruas da cidade. Viu-a embalando o filho deles e apresentando a criana ao povo de San Montico.
Estava se tornando muito fcil imaginar o futuro ao lado dela. Isso era arriscado, perigoso at mesmo de pensar. A ltima vez que tivera essas fantasias, fora com Thea. E, a exemplo da ex-noiva, Christina no o amava. Tinha que parar de pensar nela e encontrar outra noiva.
	A enfermeira disse que ele  o homem mais bonito do mundo.  A voz da menina interrompeu-lhe os pensamentos.
  verdade?
	S entre ns, sim,   Christina respondeu num tom de confidncia.
	Como ele ?
Richard espiou pela porta entreaberta e viu bandagens nos olhos da menina. No queria que percebessem a presena dele. Queria ouvir a resposta de Christina.
	Ele ... o prncipe mais bonito dos seus sonhos ou do seu conto de fadas predileto. Os olhos dele so azuis, claros como os riachos que descem pelas montanhas. O sorriso dele  encantador. Ele  alto, forte, e tudo o mais que um prncipe deve ser.
Era assim que Christina o via? Richard estremeceu. Seu corao comeou a bater mais forte. A menina sentou-se na cama.
	Quem est a?
Voltando-se, Christina apertou os olhos. Fitou-o por um longo momento, depois estendeu-lhe a mo.
	Quem ?  repetiu a menina.
	 o prncipe  Christina sussurrou.  Alteza, quero apresentar-lhe uma das suas sditas mais leais, srta. Snia.
Richard aproximou-se, sem desviar o olhar de sua noi... de Christina.
	 um prazer conhec-la, srta. Snia.  Richard beijou a mo da menina, que suspirou. Rindo, ela se desvencilhou  cobriu a boca com a mo.  Como est?
	Bem, Alteza.
Richard estava emocionado. Snia e as demais crianas eram adorveis. Ele queria fazer algo por elas. Uma exposio com os desenhos e outros trabalhos manuais que faziam, seria um bom comeo. Ele sorriu.
	Alteza, Snia teve muitas emoes por hoje  disse Christina.  Ela precisa descansar.
	Claro.
Depois de beijar a menina, Christina ajudou-a a deitar-se na cama. Richard cobriu-a e beijou-a na testa, como o pai o beijara tantas vezes.
	Durma bem  ele murmurou.
	Alteza, posso contar-lhe um segredo?
Ele ergueu as sobrancelhas. Nunca compartilhara o segredo de uma criana, antes. Ele se inclinou.
	O que ?
	Estou contente por Sua Alteza se casar com Christina.
 A seriedade de Snia surpreendeu-o.  S entre ns, acho que voc no encontrar ningum melhor do que ela.
Richard sorriu pelo modo como Snia imitava Christina.
	S entre ns, acho que voc est certa.
Christina segurava firme a pilha de desenhos das crianas para no perder nenhum no caminho at o saguo do hospital.
	Voc foi maravilhoso com as crianas  ela comentou.
	Que nada. As crianas  que so maravilhosas.
Modstia? A imagem que ela tinha dele, estava mudando. Para melhor.
	No  s isso.
	Gosto de crianas  confessou o prncipe.
	Voc foi paciente e gentil. Amigo e solidrio.
	Voc fala como se me considerasse um monstro, antes desta visita.
	Um monstro no. Um bicho-papo, talvez.
Ele riu.
	J fui chamado de coisas piores.
	A propsito, o que voc e Snia estavam cochichando?
	Segredo. No posso contar.
	Quanta lealdade aos sditos! Que prncipe valente voc !
	Jurei segredo. O que mais posso dizer?
Ela sorriu. A imagem de Richard tomando ch com uma garotinha, surgiu na mente de Christina. Ele seria um bom pai, ela tinha certeza. A rapidez das pulsaes e a respirao ofegante preveniram-na de que deveria manter distncia das fantasias que comeavam a povoar sua imaginao.
Christina ps os ps fora do hospital e parou. Piscou com o pipocar dos flashes. Luzes, cmeras, multido.
	Oh, Deus...
Richard parou ao lado dela.
	O que...
Seguiu-se um bombardeio de perguntas. Mais flashes. As luzes cegaram-na.
	O que vamos fazer?
Richard enlaou-a pelos ombros, segurando-a com firmeza, oferecendo segurana, conforto e fora.
	Estamos cercados. Temos que agir com habilidade.
Christina apertou os desenhos no peito.
Richard ergueu a mo, pedindo silncio.
	Christina e eu ficaremos felizes em posar para algumas fotos.
Posar? Ela no queria ser fotografada. No, depois da foto publicada nos jornais. Ficou tensa. Richard apertou-a mais, tranquilizando-a.
	Voc consegue enfrentar isso?  perguntou ele.
	Tenho escolha?
	No.  Os olhares se encontraram e Christina estremeceu, sentindo-se a nica mulher na face da Terra e ele, o nico homem.  Tentarei.
	Esta  a minha Christina  murmurou ele, antes de voltar a ateno aos reprteres.  No podemos nos demorar, mas responderei a algumas perguntas.
	Onde ser a lua-de-mel, Alteza?
Richard sorriu.
	Se voc fosse eu, contaria?
O reprter, autor da pergunta, riu.
	No, se disso dependesse minha vida.
	Por isso, estou guardando segredo. Nem Christina sabe.
	 verdade, srta. Armstrong?
	S... s... sim. O prncipe Richard  intransigente quando trata-se de segredos.
	E verdade que Delia est confeccionando seu vestido de noiva?
Christina hesitou. No estava acostumada com perguntas diretas. A maior parte das notcias que a mdia publicava sobre ela, vinha de informaes de terceiros ou mexericos, geralmente de forma exagerada.
	Sim,  verdade.
	Pode nos descrever como ser?
	No com o noivo por perto.  De repente, a tenso desaparecera.  Na Amrica, dizemos que d azar o noivo ver o vestido da noiva antes do casamento. Chamem-me de supersticiosa, mas no quero correr o risco.
Todos riram.
Mais perguntas eram feitas aos gritos, e Christina no se intimidou. Respondia a todas com clareza e objetividade. Minutos depois, Richard tornou a levantar a mo.
	Por favor, senhores. Temos que voltar ao palcio. Em breve, faremos um comunicado oficial.
A multido aplaudiu.
	Sei que esto ansiosos por detalhes, mas espero que respeitem nossa privacidade. Esta  uma poca... especial para ns. Se quiserem mais fotos, sugiro que batam agora.
Depois de algumas poses, Richard e Christina entraram no carro que ele mesmo dirigia.
	Foi muito difcil?
	At que no.
Seria melhor se Richard no fosse um prncipe, se abdicasse ao trono e fosse com ela para o oeste americano.
Claro, isso jamais aconteceria, mas Christina poderia passar os dez minutos do trajeto at o palcio, fantasiando uma vida com Richard. Recostou a cabea no banco do carro e suspirou.

CAPITULO X

A tarde passou com incrvel rapidez. Almoo om a princesa Marguerite, visita a reparties pblicas, reunio com o bispo de San Montico.
A quarta-feira trouxe ansiedade. O dia do casamento estava prximo e Christina tinha que encontrar uma noiva para Ri-chard. A nica nota brilhante do dia, foi o telefonema da me dela, avisando que estava presa no Aeroporto Charles de Gaul-le, devido  greve dos funcionrios. Pelo menos, uma chance de adiar o casamento.
No quarto, Christina tirou as luvas, os sapatos e jogou-se no sof. Deveria estar vasculhando o registro dos nobres  procura da futura esposa do prncipe, mas seu corao no estava no trabalho.
Para distrair-se, pegou o bloco de desenho. Depois de alguns riscos, as feies do cowboy ficaram definidas. Era Richard.
Se o Prncipe Encantado existisse realmente, ele seria exa-tamente igual a Richard. Lbios cheios, olhos claros, clios longos, queixo determinado, s vezes arrogante.
As Unhas continuavam a tomar forma. Acrescentou armadura, espada. Imponente, Richard empunhava a lana, pronto para partir para a batalha, deixando a mulher amada para trs.
Cus! O que ela estava fazendo? Christina colocou o bloco num canto da escrivaninha. Era ridculo deixar-se envolver por contos de fadas. A fantasia estava muito distante da realidade.
A realidade era Richard procurar outra mulher para se casar. Realidade era...
Uma batida na porta.
Seu corao bateu mais forte. Richard?
 Entre.
A porta se abriu e Didier entrou.
	Como foi a prova do vestido?
Naquela manh, ela provara o vestido de noiva. Delia caprichara. O vestido era digno de uma princesa de contos de fadas. Era triste pensar que Delia e suas assistentes estavam trabalhando tanto para nada. Se, por sorte, a noiva de Richard tivesse o mesmo manequim...
	Muito bem.
	Que bom.  O sorriso revelava a sinceridade dele.  Tenho uma surpresa para voc.
Kelsey Armstrong Waters entrou no quarto carregando uma cesta de gato.
	Surpresa, priminha! Olhe quem veio comigo.
	Kelsey!  Christina levantou-se e abraou a prima.  Voc trouxe Francis.
	George  um timo bab de gatos. Quando cheguei em OTIare, ele esperava por mim com Francis e a caderneta de vacinao.
	Por que voc a trouxe?
. Voc vai morar aqui, depois do casamento. Imaginei que quisesse Francis por perto.
Todos estavam exultando com o casamento. O que aconteceria quando descobrissem a verdade? Ela forou um sorriso.
	Obrigada, Kelsey. Espero que ela no tenha dado muito trabalho.
	Trabalho nenhum. Ambas viajamos de primeira classe.
Ela teve um assento exclusivo.
Enquanto abria a cesta, Christina percebeu os olhares de Didier para Kelsey. Os homens se encantavam com os olhos cor de violeta, os cabelos castanhos compridos at a cintura e o sorriso radiante de Kelsey.
livre, Francis correu pelo quarto e escondeu-se debaixo da cama.
	Ela comeu?  Christina perguntou.
	Claro! Como eu disse, viemos de primeira classe.  Apertando os olhos, Kelsey assobiou.  Ento, este  o anel?
Christina estendeu a mo.
	Sim. O anel de noivado real.
	Poderia ser pior.  Kelsey riu.  Onde esto as luvas?
	Como voc sabe sobre as luvas?
Didier aproximou-se dela.
	Eu disse  srta. Waters que voc lanou uma nova moda na ilha.
	Eu?  Christina era a mais desprendida dos Armstrong.
Preferindo conforto  rtulos, ela era presena constante na listas das mais deselegantes, para desespero de sua me.
	Sim. Todas as mulheres de San Montico copiaram a moda, acabando com o estoque de luvas de todas as lojas.  um toque de elegncia e charme.
	Concordo.  Kelsey jogou os cabelos para trs.  Vou comprar, pelo menos, um par para mim.

	Se precisar de ajuda, por favor, avise-me  Didier ofereceu-se.
Kelsey piscou.
	Voc  muito gentil.
Didier corou.
	Bem, vou deix-las a ss. Com licena.  Inclinando-se Didier saiu do quarto.
Assim que ele fechou a porta, Kelsey no perdeu tempo.
	Fale-me sobre Didier. Ele no  encantador? Bonito, educado e adorvel. Adoro o modo como ele me trata. "Srta. Waters".  Ela riu.  Ele  casado? Eu no vi aliana. Voc pode descobrir para mim?
Christina sorriu. A prima se entusiasmava por homens bonitos, mas depois do segundo encontro, achava todos aborrecidos e sem graa.
	Vou tentar.
	Eu sabia que podia contar com voc.  Kelsey sentou-se no sof e puxou Christina para sentar-se ao lado dela.  Agora, conte-me tudo sobre esse seu romance relmpago. Desde o comeo, e no esquea nenhum detalhe.
Quando Christina terminou de explicar toda a situao, Kelsey levantou-se.
	No entendo. Um belo prncipe, um palcio maravilhoso, um feitio de amor. Se eu fosse voc, estaria pulando de felicidade. Voc tem certeza do que est fazendo?
	A lenda no significa nada para mim.
	Significa tudo, e voc sabe disso.  Kelsey afagou o dedo de Christina.  Voc est usando o anel. O prncipe tem que se casar com voc.
	No, no tem.  Christina lanou um olhar enviesado para a prima.  Desde quando voc se tornou defensora do casamento?
	Admito que a instituio do casamento no  para mim, mas  perfeita para voc e outras milhares de pessoas.  Kelsey viu o desenho sobre a escrivaninha.  Voc se apaixonou por ele, no?
Christina baixou a cabea. Desde que conhecera Richard, ela lutava contra a intensa atrao por ele. Sempre que ele estava por perto, alguma coisa acontecia. Os sentidos se alertavam, o estmago se contraa. Porm, foi ao v-lo com as crianas, que seu corao capitulou.
Sob a aparncia nobre de Sua Alteza Serenssima, ela encontrou um homem de verdade, e, surpreendentemente, gostou do que viu. Um homem intocvel que queria ser tocado. Um homem inconquistvel que precisava ser conquistado. Um homem que amava, mas fingia no amar.
Richard devia pensar que seu corao estava protegido por uma armadura, mas estava errado. A magia no conseguia toc-lo, mas o amor poderia. Um dia, ele descobriria sozinho.
Christina no acreditava num final feliz para o seu conto de fadas. Ela e Richard no viveriam felizes juntos.
Ela queria um homem para quem a famlia fosse prioridade. Um homem comum. Richard tinha muitas qualidades, mas no era um homem comum. Ele governava um pas e sua vida sempre seria pblica.
	Ele  tudo o que no quero num homem.
Kelsey meneou a cabea.
	Ainda sonhando com uma casa no meio do mato?  Ela segurou a mo de Christina.  Pense muito, e srio, no que voc est fazendo. Voc no ter uma segunda chance.
	Eu sei. Eu...
Eu o amo.
Oh, no! Christina fechou os olhos, admitindo a verdade. Apaixonara-se por ele. Profundamente. Mas no queria que ele se casasse com ela por obrigao. Queria que ele se casasse com ela por vontade prpria. Por amor.
Ela olhou para o anel e lembrou-se.
Somente o verdadeiro amor poder remov-lo.
Ela puxou o aro dourado. Com fora. O anel continuava firme como uma rocha.
Amor no correspondido no valia.
A magia do anel funcionara com ela, mas no com Richard. Jamais poderia se casar com um homem que no a amava. Christina escondeu o rosto com as mos.
	Como pude ser to tola?
	Voc no  tola.  Kelsey confortou-a com um abrao. 
	 E tambm no  o fim do mundo. Tia Claire nunca se recuperar do golpe, mas voc sair desta.
Sairia, sim. Ela no encontrara o amor de sua vida. Estava apenas envolvida pelo encantamento da lenda. Como todos no palcio. Como todos em San Montico. Todos, menos Richard.
O jantar foi um acontecimento prdigo, com a presena de quase todos os membros da famlia Armstrong. Richard ansiava para que acabasse logo. Sentia falta de Christina. Monopolizada pela famlia, ela quase no lhe dera ateno. Assim que terminaram a sobremesa, ele se desculpou por ambos e acompanhou Christina at o quarto dela.
Tentava compreender o conflito de emoes que desencadeava-se em seu ntimo. Alvio por escapar dos convidados e, finalmente, ter Christina s para ele. Confuso por ver o entusiasmo dela para voltar  tarefa de encontrar-lhe uma esposa. Sentimentos absurdos, dadas s circunstncias.
Sentada diante da escrivaninha, com os registros abertos, Christina colocou a caneta atrs da orelha.
	Ainda bem que o jantar terminou.
	Seus primos so muito atenciosos.
	Claro. De repente, todos decidiram reparar em mim. Tudo mudar, assim que nosso noivado acabar.
	Isso a preocupa?
	No tanto quanto eu pensava  admitiu ela.  No posso passar minha vida tentando agradar minha famlia. S agora percebi. Se todos em San Montico me aceitam porque estou com o anel, minha famlia pode muito bem aceitar-me sem ele.  Ela sorriu.  Talvez esse anel tenha mesmo algum poder mgico. No estou falando de feitio de amor. Voc percebeu h quanto tempo no provoco um acidente, um incidente ou algum estrago?
	Coincidncia.
Ela juntou as sobrancelhas e duas linhas surgiram na fronte.
	No estrague tudo, est bem?
	Claro...  Ele viu a gata saindo de trs do sof.  Francis j se acostumou?
	Ela ainda est estranhando um pouco.
	Francis, venha c  ele chamou.
A gata correu para debaixo da cama e miou.
	Ela no entende muito sobre obedincia s ordens reais.
	Aparentemente no. Eu s queria v-la de perto.
	Logo voc a ver. Mais uns dias, e ela estar correndo por este palcio como uma rainha.
Mas eles no teriam muitos dias. O tempo estava passando e ambos sabiam disso. Os olhares se encontraram.
	Novidades?  Richard perguntou.
Christina desviou o olhar.
	No. Voc verificou a lista de ontem?
Ele fez um gesto afirmativo de cabea.
	Uma est esquiando nos Alpes, outra j est noiva, a outra entrou pra um convento.
Christina apontou para o livro.
	J estou no fim do alfabeto. Faltam poucas letras...
O prncipe olhou para a mo dela. O anel de noivado brilhava sob a luz, provocando-o.
	Quem sabe nossa sorte esteja na letra "Z"?  ele tentou brincar.
	E se no estiver? Voc tem algum plano reserva?
	No. E voc?
	Estou ocupada demais com estes livros e no consigo pensar em mais nada. No  tarefa fcil organizar uma lista de candidatas elegveis.
	Agora voc sabe como estes ltimos seis meses tm sido para mim.
	Posso imaginar.
	Por que no procuramos um marido para voc? Ser mais fcil.  A sugesto causou-lhe um certo mal-estar.  Posso reunir um grupo de cowboys e voc escolher um.
	No, obrigada. Eu mesma encontrarei meu marido.
Richard ergueu os ombros.
	Vale a pena tentar.
	Sabe o que sua me me disse hoje?
Ele imaginava.
	O qu?
	Que sou muito melhor de tudo o que ela esperava de uma nora. E o seu tio...  Ela olhou para o livro, mas seu olhar estava distante.   to... Ainda nem nos casamos e todos tm sido gentis e mais receptivos do que a minha prpria famlia.  realmente muito bom.
Richard acariciou-lhe a ponta do nariz.
	Um dia, voc ter sua prpria famlia e tudo o que sonhou.
	Eu sei.  Ela suspirou.  Vou terminar de ler estes registros enquanto voc pensa num plano reserva. Mais tarde, nos encontraremos. Boa sorte.
	Para voc tambm.
Richard foi para o quarto dele. Fechou a porta, sentindo o incrvel peso da solido. Olhando para as chamas na lareira, tentou pensar num plano reserva, mas no conseguia tirar Christina do pensamento.
Talvez estivesse comeando sentir algum afeto por ela. Era natural, considerando o tempo que passavam juntos, cmplices, conversando, planejando. Mas no podia dar-se ao luxo de sentir nada mais. Qualquer coisa mais significava aceitar a Lenda do Anel, significava arriscar o corao e a alma na busca do verdadeiro amor.
Ele no queria apaixonar-se. Ainda sofria pela traio de Thea. No queria sentir, de novo, a dor da rejeio. E no era s isso. As mulheres sentiam-se atradas porque ele era prncipe. Estava acostumado. Porm, Christina era diferente. Ela no o queria justamente por ser prncipe.
O que ele poderia fazer?
Em primeiro lugar, e mais importante, no podia perder o trono. Essa era a principal, a nica, prioridade. No podia permitir que o reinado de sua famlia terminasse. Tampouco, quebraria a promessa que fizera ao pai. Perdendo o trono, perderia tudo.
Tinha que se casar.
Com quem?
Christina. Era a escolha lgica, considerando a falta de outras candidatas qualificadas. Casando-se com ela, estaria alimentando a lenda, mas, em compensao, ele continuaria no trono. Depois do casamento, teria tempo para desmistificar a lenda, provando que no encontrara o verdadeiro amor. Poderia conseguir a anulao do casamento e tornar a casar-se com a mulher que escolheria. No final, conservaria o trono e o corao intato.
Sim, esse seria o plano reserva.
Havia outro problema. Como convencer Christina? Ela queria casar com um homem a quem amasse. Ele precisava de...
Magia.
Se ao menos ele acreditasse!
Desesperado, Richard pegou o telefone. No, no podia fazer isso. No acreditava em magia. Ia recolocar o fone no gancho, mas desistiu. Seu trono estava em jogo. Tinha que fazer alguma coisa, ainda que egosta e desleal.
Jurando que era em desespero de causa, discou um nmero. Uma voz sonolenta atendeu do outro lado.
	Alo?
	Desculpe acord-lo, mas  importante  disse Richard.
	Alteza?
	Sim.  Era loucura acreditar que a magia daria certo, mas ele no tinha escolha.  Merlin, preciso daquela poo de amor.
Usando as passagens secretas, Richard saiu e foi at a casa de Merlin. Depois de pegar a poo, ele voltou ao palcio, sem ser notado.
No corredor, avistou Christina sentada no cho, na porta do quarto dele.
	O que est fazendo aqui?
Ela se levantou e esfregou as mos nas cala.
	Estava  sua espera.
	Eu me lembrei de um assunto urgente.  Por que dissera aquilo? Ele no tinha que dar-lhe explicaes de suas idas e vindas.
	Assunto urgente?
Ele confirmou com um gesto de cabea. Talvez a presena dela fosse um sinal de que deveria dar continuidade ao plano.
	Voc disse que estava  minha espera.  Richard abriu a porta do quarto.  Entre, vamos conversar.
	Obrigada.
Os crculos ao redor dos olhos dela, revelavam cansao.
	Essa busca est acabando com voc.
	Mas j terminei.  Ela no parecia entusiasmada, embora o sorriso continuasse em seus lbios.  Eu...
	Que tal um drinque primeiro?
	Seria bom.
Abrindo um mvel, ele retirou dois copos de cristal e uma garrafa de Bourbon. De propsito, derramou o lquido de um dos copos sobre o mvel.
	h, por favor, poderia pegar uma toalha no banheiro?
	Claro.
Assim que Christina se afastou, ele abriu o tubo azul- cobalto com a poo do amor na 23. Resultado garantido ou seu dinheiro de volta. Richard cheirou o lquido. Inodoro. Ele hesitou.
Deveria us-lo?
No podia abdicar. No tinha tempo para encontrar outra noiva. S restava uma alternativa. Christina. A exaustiva pesquisa provava que ela no pretendia se casar com ele. Ela queria um cowboy. A determinao dela de se casar somente por amor, no dava ao prncipe outra escolha.
A poo era sua ltima esperana.
Ele tinha bem claro em sua mente que s tomava essa deciso extrema por uma questo de dever e praticidade, e no levado por sentimentalismo. Esvaziou o vidro de poo no copo de Christina e mexeu com uma colher de prata.
Estava feito.
Christina voltou com a toalha. Ele enxugou o tampo do mvel e ofereceu um dos copos a ela.
 Obrigada.
O corao dele batia ansioso como no incio de uma regata. S que aquilo era mais importante do que uma corrida. Era a vida dele.
	Um brinde.  Ela ergueu o copo.   sua futura esposa.
Esposa? Ela teria encontrado...
O corao disparou. Tinha que impedi-la de beber a poo. Richard aproximou-se mais. Ela levou o copo aos lbios e bebeu. Num movimento rpido, ele tirou-lhe o-copo da mo. O copo caiu, mas no quebrou. O lquido amarelo espalhou-se pelo tapete.
Christina apertou os olhos.
	O que voc fez?
	Voc chegou a beber?
Ela usou a toalha para enxugar o tapete.
	Um pouco.
	Quanto?
	Um gole.  Ela colocou a toalha e o copo sobre o mvel.
	No consigo beber depressa.
Talvez um nico gole no surtisse efeito.
	Quer outro drinque?
	No. Obrigada.  Ela sentou numa das poltronas diante da lareira.  Algo errado?
	No.  Richard sentou-se ao lado dela, de onde podia observ-la bem. No tinha certeza quanto ao efeito da poo.
	O que voc queria falar comigo?
Christina umedeceu os lbios e olhou para as chamas na lareira.
	Sobre a princesa Julianna Von Schneckle, de Aliestle.
	Aliestle?  Richard quase derrubou o copo.  Nossos pases esto rompidos h anos!
	Cento e trinta e nove anos  Christina esclareceu com preciso.  Eu li aqui.
	Jamais poderia me casar com uma aliestliana.  Richard deixou o copo na mesa de centro.  Meu povo jamais a aceitaria como princesa.
	Claro que aceitaria. O casamento com a princesa Julianna resolveria o seu problema e tambm uniria os dois pases.
Richard levantou-se, cruzou as mos nas costas e andou pelo quarto.
	Quero um casamento, no um tratado de paz.
	Voc no pensa em casamento por amor. Portanto, que diferena faz?
Christina falava como se o casamento dele fosse um acordo de negcios. Ele continuava andando. De l para c. De c para l. No poderia se casar com a princesa Julianna. Talvez, Christina ingerira uma quantidade suficiente para a poo surtir efeito. Qualquer coisa, menos uma aliestliana.
	Quer sentar-se e relaxar por um minuto? Parece que estou assistindo a um jogo de tnis. Estou com dor no pescoo!
Richard sentou-se e cruzou as pernas.
	No vai dar certo  reclamou ele.
Christina respirou fundo.
	Voc quer casar com a mulher escolhida por voc, no pela lenda. Pois bem. A princesa Julianna tem vinte e cinco anos e rene todos os requisitos de sua lista. Voc poderia, pelo menos, conversar com ela.
Por que a poo no fazia efeito? Richard coou o queixo.
	Todos os requisitos?
	Sim. Alm de tudo,  excelente marinheiro.
	Ela veleja? Como sabe?
	Estamos correndo contra o tempo, Alteza. Por isso, achei por bem tomar algumas providncias. Falei com algumas pessoas bem informadas que colocaram-me em contato com ela. Tudo no mais absoluto sigilo, lgico. A princesa mostrou-se compreensiva e... prestativa.	

CAPITULO XI

Na manh seguinte, sentada no salo, Chris-tina torcia as mos enluvadas e esperava.
Richard e o Conselho Real de San Montico estavam reunidos com membros da famlia real e com o Conselho de Ancios de Aliestle. A menos que resolvessem as disputas centenrias entre os dois pases, o rei Alaric de Aliestle no permitiria qualquer discusso sobre o casamento. Todos acreditavam que Christina queria que a princesa Julianna, "sua velha amiga", fosse sua dama de honra.
Christina no parava de bocejar. Passara a noite em claro e agora, lutava contra o sono. A partir do dia seguinte, teria muito tempo para dormir. Tempo para fazer o que bem entendesse. Tempo para recolher os cacos* de seu corao partido.
As portas do salo se abriram e Didier apareceu.
	Sua Alteza Real, prncipe coroado Brandt Roland Wilhelm de Aliestle e Sua Alteza Real, princesa Julianna Louise Marie.
Christina levantou-se. Um homem e uma mulher entraram no salo, seguidos por Richard.
A princesa Julianna tinha tudo o que Richard poderia querer numa esposa. Beleza, elegncia e classe. Perto dela, Christina sentiu-se a prpria Gata Borralheira. O prncipe Brandt tambm era bonito, moreno, refinado.
De terno azul-marinho, camisa branca e gravata de seda em tons de azul, Richard parecia mais nobre do que nunca. Os lbios comprimidos dele revelavam que as negociaes estavam concludas.
	Altezas, permitam-me apresentar-lhes a srta. Christina Armstrong, dos Estados Unidos da Amrica.
Christina fez uma reverncia.
O prncipe Brandt pegou na mo dela, levou-a aos lbios e beijou-a de leve. Exatamente como Richard, na noite do baile de aniversrio.
	 uma honra conhec-la, srta. Armstrong.
O olhar avaliador dele embaraou-a.
	 um prazer conhec-la pessoalmente, srta. Armstrong  disse a princesa Juliana polidamente.  Apreciei nossa conversa por telefone.
	Obrigada, Alteza. Agradeo sua vinda.
A princesa Juliana ergueu o queixo.
	Depois de seu telefonema desesperado, eu no podia desperdiar um segundo.
Richard lanou um olhar fulminante para Christina.
	Desesperado?
Christina fingiu no ouvi-lo. Mas fora desesperado, mesmo. Ela estava com pressa para encontrar algum que pudesse dar a Richard o amor que ele merecia.
	Bem, estou aqui.  A princesa sorriu.  Seu desespero acabou.
No exatamente. O desespero de Christina estava apenas comeando, mas essa era outra histria.
O ch foi servido para os quatro. As negociaes para a reconciliao entre San Montico e Aliestle continuavam, mas a tenso pairava no ar, apesar do tom civilizado da conversa.
Enquanto bebia o ch, Christina observava Richard. Ele no parecia muito satisfeito com a reunio. Alm da questo entre os pases, Richard e Julianna precisavam esclarecer alguns detalhes sobre o casamento.
	Como foram as negociaes, Altezas?
Com um gesto de mo, o prncipe Brandt convidou Richard a explicar.
	Decidimos dividir igualmente as responsabiiidades pelo desentendimento. Est sendo redigido um documento em conjunto pelo nosso Conselho e pelos Ancios.
	Que notcia maravilhosa!  S Christina no via o desnimo no rosto dos trs prncipes.  No ?
A princesa Juliana sorriu.
	Sim, a notcia  maravilhosa. Perdoe-nos por no partilhar do seu entusiasmo, mas a reunio foi quase... uma imposio.
	Nesse caso, em vez de falarmos sobre poltica, por que no conversamos sobre coisas mais importantes, como as bodas reais?
Todos riram, e a tenso diminuiu.
	E espero, Altezas, que se sintam  vontade para chamarem-me de Christina.
Os olhos do prncipe Brandt brilharam.
	Obrigado, Christina.
	No ligue para o meu irmo  disse Julianna.  Ele  um namorador contumaz.
	No estou me justificando, mas tenho boas razes para ser assim  respondeu o prncipe Brandt.  Meu destino est selado desde os doze anos de idade, quando fui prometido  filha do nossa embaixador na Amrica. Eu a vi apenas uma vez e a nica imagem que tenho da minha noiva  a de uma menina de oito anos, de culos e comendo chocolate.  com preensvel que eu seja namorador, no?
Richard sorriu.
	Completamente compreensvel.
O prncipe Brandt suspirou.
	Quem me dera ter um anel para encontrar meu verdadeiro amor.
	Os casamentos arranjados so comuns em nosso pas  explicou a princesa Julianna.  Muitos so combinados quando somos crianas. O meu noivado foi acertado quando eu tinha apenas sete anos.
	Sua Alteza  noiva?  Christina perguntou.
	No sou mais.  A sombra da tristeza anuviou os olhos de Julianna.  Ele foi julgado inaceitvel, anos atrs.  O sorriso desapareceu, depois reapareceu.  Desculpe, eu deveria ter contado antes.
A princesa podia achar engraado o compromisso prematuro, mas ela ainda estava apaixonada. Christina reconhecia os sintomas, por experincia prpria.
A conversa prosseguia e ela esperava que Richard pedisse licena para ficar a ss com Julianna. Mas ele no dizia nada. E Christina no queria continuar ali, com eles, imaginando como seria o futuro dos dois juntos. Seria insuportvel.
Colocou a xcara de ch na bandeja e levantou-se.
	No estou certa quando ao protocolo, mas gostaria de mostrar os jardins para o prncipe Brandt.
	Excelente ideia.  Brandt ergueu-se rapidamente.  Voc se importa, Jules? Alteza?
Richard hesitou.
	Eu...
Julianna olhou-o.
	Alteza?
	Sim, podem ir  Richard respondeu.  Tenho certeza que o prncipe Brandt apreciar o desafio do labirinto.
	Obrigada, Alteza.  Juliana olhou para o irmo.  Comporte-se.
O sorriso de Brandt alargou-se.
	Sou sempre comportado.
A princesa Julianna suspirou.
	Esse  o meu medo.
Richard franziu as sobrancelhas.
	Talvez...
	At mais tarde.  Christina queria no gostar de Julianna, mas no conseguia. Ela no tinha culpa de ser tudo o que Richard desejava. Christina s no compreendia por que ele parecia to infeliz. Ele teria tudo o que queria. Ela no teria nada.
S o corao partido.
Richard convenceu-se de que Julianna era to perfeita quanto Christina afirmara. Ela preenchia todos os requisitos da lista e causara-lhe tima impresso. Seria uma princesa maravilhosa e um trunfo para San Montico. O casamento uniria os dois pases e desmentiria a lenda. Ele teria condies de levar o progresso  a modernidade a San Montico, como era desejo de seu pai.
Todos os problemas de Richard seriam resolvidos.
Todos, menos um.
Julianna no era a mulher com quem queria passar o resto de sua vida. Ela no tinha sardas, nem duas linhas na fronte, logo acima do nariz, quando ficava sria. Ela no derrubava, nem quebrava coisas, rindo depois de seus estragos. Ela jamais incendiaria nada, exceto o corao dos admiradores. E nem perderia seu tempo procurando outra mulher para ele se casar.
Logicamente, nada disso importava. Ele deveria se casar com Julianna. Ela era a escolha certa. A melhor escolha para ele e a perfeita escolha para o pas.
Sim, era ele quem a escolhia para esposa. Porm, Juliana no era diferente das outras mulheres. Ela o desposaria porque ele era um prncipe. O casamento poderia at tornar-se uma unio feliz e da convivncia poderia nascer o amor. Porm, no passava de um acordo de negcios, um tratado comercial. A fuso de dois pases.
S uma mulher o enxergava alm do ttulo de nobreza.
S uma mulher o enxergava primeiro como homem, depois como prncipe.
S Christina.
Richard estava preparado para chegar  reta final. S que no estava numa competio. Estava em jogo muito mais do que uma taa de ouro. E no era apenas o destino dele que estava envolvido, mas tambm dois pases com um passado de sangue.
	Alteza...  Richard hesitou.  Como se sente com relao ao nosso... casamento?
	Seria conveniente para os nossos pases.
	Sim, seria. Mas como voc se sente?
Julianna ficou em silncio durante alguns instantes.
	Eu...
	Sua famlia forou-a a vir?
	"Forar"  uma palavra muito forte  respondeu Julianna.  Fui encorajada a vir. Como a filha mais velha, tenho a responsabilidade de dar bons exemplos aos meus irmos. Eu fao o que me pedem.
Eu tambm. Richard fitou-a.
	Voc quer esse casamento?
Ela baixou os olhos para a xcara de ch.
	No ficarei magoada se o compromisso entre ns no se concretizar.
Richard suspirou aliviado. Juliana tambm tinha dvidas.
	Verdade?
	Sempre sonhei em casar-me por amor. Mesmo com a tradio aliestliana de casamentos arranjados, se,mpre pensei que poderia acontecer comigo.  Ela suspirou.  Quem sabe, algum dia, eu encontre um homem que me ame como voc ama Christina.
Richard estremeceu.
	Como sabe que eu amo Christina?
	No fique to surpreso.  Julianna sorriu.  Lembre-se, eu tenho quatro irmos mais novos.
	No sei o que dizer.  Talvez, ele devesse arriscar tudo. A famlia, o trono, o pas. Mesmo que isso significasse uma rejeio. Mesmo que significasse sofrimento. At mesmo uma guerra.  Voc no est ofendida?
	Um pouco, talvez  admitiu ela.  Mas para meu consolo, pensarei que sou a primeira aliestliana viva a pisar no solo de San Montico e a tomar ch sozinha com o prncipe governante. Isso assegurar meu lugar nos livros de histria do pas e deixar meus irmos mortos de inveja. Detestaria interferir na vontade da lenda.
	Ah, sim, a lenda.
Seria hora de parar de fugir e admitir a verdade? Ele no tinha o direito de determinar as crenas de seu povo. Algumas tradies eram antiquadas e verdadeiro atraso de vida para San Montico, mas outras enriqueciam a cultura e faziam da ilha um lugar especial para se viver. Ele estava tentando manter o controle, fazer as escolhas corretas. Estava desperdiando vida e amor. Sua teimosia em no acreditar na Lenda do Anel, impedia-o de ver o presente precioso que recebera.
Christina.
Julianna ergueu as sobrancelhas.
	Os sentimenos de Christina so to fortes quanto os seus.
	Gostaria que fosse verdade.
	Homens!  Julianna revirou os olhos. Depois, tirou uma folha de papel de dentro da bolsa e desdobrou-o.  S de olhar para este desenho, qualquer mulher perceberia que Christina o ama.
Richard observou o desenho, uma cpia do esboo de Christina. S que no lugar do cowboy estava ele, de armadura, montado no cavalo. Tinha uma lana em uma das mos, e o elmo na outra.
	Como o conseguiu?
	Christina enviou-me pelo fax, ontem  noite. Em Aliestle, no so permitidas fotos da famlia de Thierry e eu quis saber como voc era. O desenho era o que tinha em mos.  Julianna entregou-lhe a folha de papel.  Christina  muito talentosa.
O talento era apenas uma das suas muitas qualidades maravilhosas. Olhando para o desenho, Richard compreendeu que estava no princpio de algo novo, algo maravilhoso. A sensao era muito grande, a percepo tambm.
A lenda escolhera Christina, mas, finalmente, ele prprio a escolhia. E no a deixaria ir embora sem lutar por ela, independente das consequncias.
	Sim, muito.
Julianna sorriu.
	Desejo-lhe toda a felicidade do mundo.
	Como poderei agradecer-lhe, Julianna?
Ela pousou a mo no ombro dele.
	Leve Christina para passar a lua-de-mel em Aliestle. J que no uniremos nossos pases pelo casamento, porque no uni-los pela amizade?
Uma autntica diplomata.
	Obrigado.  Richard segurou a mo dela.  Gostaria que ficassem para o casamento.
	Ser uma honra!  Sorrindo, ela juntou as mos.  Eu adoro casamentos!
Christina e o prncipe Brandt estavam no centro do labirinto. Fascinado, o prncipe olhava para os jardins do palcio e,  frente, a imensido do mar cor de safira.
	Que vista espetacular!  o prncipe Brandt exclamou.
	Realmente.
Christina sentiria falta no s da vista, mas de toda San Montico. A brisa morna com cheiro de mar tocou sua pele. Ao longe, as torres da catedral pareciam tocar o cu azul sem nuvens. As ruas estreitas serpenteavam por entre as casas coloridas encravadas nas montanhas. Um perfeito carto postal. Como num conto de fadas.
Mas no era o seu conto de fadas, aquele em que se casava com o prncipe e viveriam felizes para sempre.
Aprendera muitas coisas durante sua estada em San Montico.
Ela sempre se lembraria de Richard e dos dias que passara no palcio. Mas, principalmente, ela se transformara numa outra mulher.
Quando estourasse a notcia do casamento de Richard com Julianna, a famlia de Christina a consideraria mais inconsequente do que nunca. Mas, ela no se importaria. Tambm ignoraria os comentrios irnicos da imprensa. No se esconderia mais atrs de uma tela de pintura e viveria sem preocupar-se com as manchetes de jornais e suas repercusses.
Poderia at mudar-se para o oeste, mas por opo, no por necessidade. A bem da verdade, no tinha mais tanta certeza daquilo que sempre definira como "comum".
Talvez, qualquer dia, se ainda tivesse vontade, ela descobriria.
	Voc precisa conhecer Aliestle  comentou o prncipe Brandt.  Temos lugares maravilhosos tambm.
Antes que pudesse responder, ela sentiu um frio no estmago. Mesmo sem v-lo, ela sentiu a aproximao de Richard. Ele parou ao lado dela e enlaou-a pelos ombros.
	Onde est a princesa Julianna?  Christina perguntou.
	L dentro. Prncipe Brandt, ela est  sua espera no salo. Meu conselheiro, Didier, est no fim da escada para acompanh-lo at o palcio.
	Obrigada pela companhia, Christina.  Brandt fez uma reverncia e saiu.
Com supremo esforo, Christina desvencilhou-se para olh-lo. No queria perguntar, mas no podia fugir da realidade.
	E ento? Como foi?
Um sorriso misterioso danou nos lbios dele.
	timo.
Ela esperava que ele contasse mais, mas ele se calou.
	E da?  Christina insistiu.
	Gostei de conversar com ela. Julianna corresponde s minhas expectativas.
Christina nunca imaginou que doesse tanto ouvir a verdade. Sorriu apenas para disfarar o tremor dos lbios.
	Ainda bem.
	Julianna  muito bonita.
Christina conteve o impulso de gritar, mas isso s tornaria a situao ainda pior.
Richard encolheu os ombros.
	E da? Eu no quero mesmo me casar com ela!
	Voc... o qu?  Certamente, ela no ouvira direito.
	Eu no quero me casar com ela.
Richard piscou e contemplou-a com seu sorriso mais charmoso, com covinha e tudo.
	Se o prncipe Brandt se chamasse Tex ou Jake, e usasse
chapu e botas de cowboy, eu teria me preocupado.
De repente, ela at pensou que Richard estava flertando, e que a confiana dele significava algo mais. Seu corao bateu mais forte. Queria confessar-lhe o quanto ele se tornara importante para ela. Se ao menos... Ela desviou o olhar.
	No sei o que esta conversa tem a ver com voc e Julianna.
	Absolutamente nada.
	Voc deve se casar, Richard.
	Eu sei.
	Por favor, no tem outro jeito.
	Sei disso tambm.
	Voc no pode perder o trono.
	No vou perder.
	No suportaria se...
	Case-se comigo, Christina.
	Case com Julianna.
	O qu?!  Ambos perguntaram ao mesmo tempo.
Richard sorriu.
	Casa comigo, Christina?
	Eu? Casar com voc?  Deu um branco na mente dela.
Todos os pensamentos racionais desapareceram. Ela ficou imvel, gelada, incapaz de falar, de piscar.
No podia ser verdade. Certamente era um sonho. A qualquer momento acordaria. Esperou alguns minutos. Nada aconteceu. Richard continuava olhando-a com expresso ansiosa.
O que ele estava pensando? Deveria haver alguma razo especial para pedi-la em casamento. Alguma razo para querer... Christina ergueu o rosto, ciente de que estava tremendo.
	 o anel. Voc est preocupado com o anel. Prefiro cortar meu dedo fora a...
	Esquea, Christina.  Suspirando, o prncipe a pegou pela mo.  Quero mostrar-lhe uma coisa. Venha comigo.
Ela o seguiu at o centro do labirinto. L, Richard abriu uma porta secreta e desceram por um escada em espiral. O ar estava pesado e cheirava a mofo. Os olhos de Christina ajustaram-se  escurido. Caminharam por alguns minutos at descerem outra escada. Depois, ele abriu outra porta. Luz do dia. Christina piscou.
Cheiro de feno e cavalos, som de relinchos e cascos encheram o ar. Estavam nos estbulos.
Richard respirou fundo e Christina preparou-se para o pior.
	No quero Julianna. Quero voc.
Christina ficou muda.
	No sou um cowboy com uma fazenda de gado, mas tenho este estbulo com alguns dos mais belos cavalos do mundo. No sou fazendeiro, dono de uma casa construda h dois ou trs sculos e plantaes que se perdem de vista. Mas tenho uma ilha com muitos quilmetros de terra frtil. No sou mecnico com as unhas sujas de graxa, mas sei consertar um pneu furado.
Ele segurou as mos delicadas entre as dele e continuou:
	No sou o homem dos seus sonhos, mas farei tudo para no decepcion-la. Se voc se casar comigo, me empenharei ao mximo para tornar sua vida o mais comum possvel. 
Os olhos de Christina encheram-se de lgrimas.
	Oh, Richard, voc realmente est trocando a princesa Julianna por mim?
	Sem a menor hesitao.
	Voc no imagina o quanto estou feliz!
	Mesmo?  Ele espreitou os olhos.  Ento por que sematou tanto procurando uma noiva para mim?
	Bem, ambos concordamos que eu no era a princesa ideal.
	Eu estava errado. Completamente, absurdamente errado. Eu a amo, Christina.  A ansiedade nos olhos dele, no rosto, revelavam sinceridade.  Eu a amo, como nunca amei ningum.
Ela cobriu os lbios dele com as mos. Se era um sonho, ela no queria acordar. Jamais.
	Voc preenche uma parte de mim que eu nem sabia que estava faltando. Voc  bonita, carinhosa e generosa.  Richard sorriu.  Sem falar do seu senso de humor. O modo como ignora o protocolo real... Nunca imaginei que gostaria disso. E quando pronuncia meu nome... Voc  a nica mulher, alm de minha me, que me v como sou realmente. Como homem, no como prncipe. Eu a amo, Christina. Jamais me cansarei de repetir isso.
As lgrimas escorriam pelo rosto dela. O corao batia mais rpido do que as asas de um beija-flor. Christina continha-se para no atirar-se nos braos dele e beij-lo at perder o flego. Como se adivinhando os pensamentos dela, Richard inclinou-se e beijou-a levemente nos lbios.
	Eu a amo, Christina e, talvez, com o tempo voc aprenda a me amar. Quero um casamento como o do meus pais.
	Mas eu...
	Antes que voc diga alguma coisa, tenho uma confisso a fazer.  Ele hesitou.  A noite passada, misturei a poo de Merlin ao seu Bourbon.
	Por isso voc jogou meu copo!
	Desculpe-me. Eu pensei que, bebendo a poo, voc se apaixonaria mim...
	Voc acreditou na poo mgica?
De novo, ele hesitou.
	Sim... acreditei. Mas no funcionou.
Ela sorriu como um tola. Uma tola apaixonada. Richard acreditou na poo porque ele a amava. Ela exultou de alegria. Eles no precisavam da lenda. No precisavam de magia.
	Sei por que no funcionou, Richard.
	Porque Merlin  uma fraude.
	No, Alteza. No funcionou porque...  Ela respirou fundo para acalmar-se.  Porque eu j estava apaixonada por voc.
Richard olhou-a boquiaberto. Christina sorriu.
	Eu o amo, Richard. Mais do que eu poderia imaginar. Ela se calou por um instante.  Eu s queria ser amada e aceita. Achei que isso s seria possvel mudando para o oeste. Mas descobri que tudo o que eu queria, est aqui em San Montico. Com voc.
Christina fechou os olhos por um instante. Depois, abriu-os lentamente.
	Oh, Richard, em uma semana, voc me deu muito mais do que eu tive na minha vida inteira. Mais amor, mais amizade, mais tudo. Voc me ajudou a superar meus temores. Voc ouvia o que eu tinha para dizer. Eu no poderia pedir mais nada nesta vida! Conhec-lo foi a melhor coisa que podia ter me acontecido.
O sorriso radiante, mais a adorvel covinha, iluminou o rosto dele.
	Vamos ver se o anel  mesmo encantado?
Com um brilho de ternura nos olhos, Richard pegou a mo que Christina lhe estendia. Ela prendeu a respirao. Ele segurou o aro de ouro. O anel deslizou no dedo dela com a maior facilidade.
	Mgico  ele disse.
	Amor verdadeiro  completou ela.
Richard beijou-a. Christina desejava que o beijo nunca terminasse. Mas logo compreendeu que era apenas o comeo, o incio de algo maravilhoso, algo realmente encantado.
Afastando-se, ele segurou a anel entre o indicador e o polegar.
	Este anel pertence a voc, princesa.
Lenda ou no, Richard a escolhera. Ele a amava e ela o amava. Christina estendeu a mo esquerda. Richard colocou o anel no dedo dela. Perfeito.

EPLOGO

Matria da edio matutina do San Montico Times... 
Bodas reais agitam San Montico
Foi realizado ontem o casamento de Sua Alteza Serenssima, prncipe Richard de Thierry com a srta. Christina Armstrong, filha do sr. e da sra. Alan Armstrong, dos Estados Unidos da Amrica. Foi um casamento digno dos mais belos contos de fadas. Centenas de pombas foram soltas, seguindo o cortejo nupcial. Depois do desfile de carruagem pela cidade, os noivos retornaram ao palcio, onde os esperava monumental recepo, com a apresentao de trinta esculturas de gelo e espetculo pirotcnico.
A noiva estava radiante em seu vestido de seda, bordado com prolas e pedras preciosas, e a coroa de diamantes, que h sculos adornam a cabea das noivas de Thierry. Alm de margaridas e jasmins, trs rosas brancas enriqueciam o buque. As rosas, simbolizando a noiva, o noivo e San Montico, foram colhidas dos jardins reais cultivados por Sua Alteza Serenssima, princesa Marguerite.
Mantendo a tradio, a noiva atirou o buque, que foi apanhado por sua prima e dama de honra, srta. Kelsey Armstrong Waters.
Entre os convidados, ressaltamos a presena de membros da famlia real de Aliestle, marcando, assim, o incio das conversaes entre os dois pases, depois de quase dois sculos de silncio.
O presidente e a primeira-dama dos Estados Unidos, amigos pessoais dos pais da noiva, tambm compareceram s bodas e presentearam o casal real com um esplndido par de candelabros Baccarat e um extintor de incndio.
FIM
